O Brasil abriga uma das maiores biodiversidades do planeta. No entanto, o avanço do desmatamento e da degradação ambiental continua ameaçando ecossistemas essenciais, comprometendo modos de vida e agravando os efeitos das mudanças climáticas.
Para enfrentar esse cenário, nasce o Redes pela Conservação, iniciativa que reúne organizações da sociedade civil, comunidades locais, instituições de pesquisa, governos e cooperação internacional em torno de um objetivo comum: proteger a biodiversidade e fortalecer estratégias de conservação nos biomas Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa.
Realizado pela Cáritas Alemanha, Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Rede Cerrado e Rede Ecovida, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o projeto é financiado pela Iniciativa Internacional para o Clima (IKI) do Governo Federal da Alemanha, por meio do Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN).
A iniciativa apoia a implementação dos Planos de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas (PPCDs) e contribui para as metas brasileiras de redução das emissões de gases de efeito estufa e de desmatamento zero até 2030.
Ao todo, o projeto pretende beneficiar cerca de 25 mil famílias e 100 micro, pequenas e médias empresas, com atenção especial à participação e ao protagonismo das mulheres.

Um desafio que exige novas respostas
Os dados mais recentes do sétimo Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), elaborado pelo MapBiomas, reforçam a urgência de iniciativas voltadas à conservação da biodiversidade. Embora o país tenha registrado uma redução superior a 20% na área desmatada em relação a 2024, a agropecuária continua associada a mais de 99% da perda de vegetação nativa nos últimos sete anos.
Os dados também revelam que a pressão sobre as formações savânicas continua elevada. Em 2025, elas concentraram 51,4% de toda a vegetação nativa suprimida no país, superando as formações florestais (46,3%). O Cerrado permaneceu, pelo terceiro ano consecutivo, como o bioma mais desmatado do país, respondendo por 55% de toda a área suprimida em 2025.
Os números evidenciam a necessidade de ampliar os esforços de conservação também em biomas que, embora recebam menos atenção pública do que a Amazônia, desempenham papel fundamental para a biodiversidade, a regulação climática e a segurança hídrica do país.
Ao mesmo tempo, os dados reforçam a contribuição fundamental dos povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas na proteção dos biomas brasileiros e na manutenção dos serviços essenciais que a natureza oferece à sociedade. Em 2025, apenas 1,3% de todo o desmatamento registrado no Brasil ocorreu em Terras Indígenas e 0,16% em Comunidades Remanescentes de Quilombos.

Para Manuel Brettschneider, coordenador de projetos na Cáritas Alemanha, o principal diferencial do Redes pela Conservação está justamente na articulação entre diferentes atores para enfrentar um desafio comum. “Ao integrar organizações da sociedade civil, comunidades, instituições de pesquisa, governos e cooperação internacional, o projeto cria condições para ampliar o impacto das ações de conservação e fortalecer políticas públicas voltadas à proteção da biodiversidade, valorizando a diversidade cultural local.”
Conservação que gera renda
O Redes pela Conservação aposta em uma abordagem integrada para conter o desmatamento. Além da proteção dos ecossistemas, a iniciativa promove cadeias produtivas da sociobiodiversidade capazes de gerar renda, fortalecer a resiliência das comunidades e incentivar o uso sustentável dos recursos naturais.

Segundo Lucely Pio, vice-coordenadora da Rede Cerrado, a geração de renda e a proteção dos territórios são estratégias inseparáveis. “Os povos e comunidades tradicionais trabalham para manter o Cerrado em pé, e com o Cerrado em pé vão gerar bons frutos. E esses frutos vão gerar renda, porque eles vão transformar os produtos da sociobiodiversidade”, afirma.
Para ela, a comercialização desses produtos fortalece a permanência das famílias em seus territórios e cria um ciclo positivo de conservação. Lucely destaca ainda que essas experiências inspiram outras comunidades a investir em cadeias da sociobiodiversidade e reforça a importância dos intercâmbios para compartilhar conhecimentos e fortalecer iniciativas locais.
Essa lógica também orienta o trabalho da Rede Ecovida de Agroecologia na Mata Atlântica e no Pampa. Cadeias produtivas como Açaí Juçara, Erva-Mate e Pinhão demonstram que é possível conservar a vegetação nativa enquanto se fortalece a economia das famílias agricultoras.
“É justamente esse potencial que o Redes pela Conservação busca incentivar, investindo em infraestrutura de beneficiamento, equipamentos e fortalecimento da capacidade de gestão e comercialização das agroindústrias familiares e comunitárias ligadas a essas cadeias”, afirma André Gonçalves, membro do comitê gestor do projeto pela Rede Ecovida.
Fortalecer quem protege os biomas
Além das cadeias produtivas, o projeto reconhece o protagonismo dos povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares no combate ao desmatamento e conservação da biodiversidade.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, o Redes pela Conservação apoia o povo Mbya Guarani na elaboração de seus Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), por meio de diagnósticos participativos, etnomapeamentos e oficinas realizadas nas aldeias. Desenvolvido em parceria com a Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários (AEPIM), o trabalho fortalece a gestão territorial indígena e contribui para a conservação da Mata Atlântica e do Pampa.

Inovação para ampliar o impacto
Para que essas experiências possam alcançar mais territórios e ganhar escala, o Redes pela Conservação também investirá no desenvolvimento de instrumentos financeiros inovadores voltados à conservação da biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos.
O projeto promoverá ainda plataformas de diálogo entre governos, organizações e comunidades para fortalecer a participação social e apoiar a construção de soluções voltadas à proteção dos territórios.

Outro diferencial da iniciativa é o desenvolvimento conjunto de instrumentos jurídicos inovadores com autoridades governamentais, contribuindo para criar um ambiente institucional favorável à conservação da biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável.
Essas ações estão organizadas em quatro componentes estratégicos: fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade; desenvolvimento de instrumentos financeiros para conservação; ampliação e qualificação da gestão de áreas protegidas; e fortalecimento de marcos políticos, inovação e participação social.
Entre os resultados esperados estão: o fortalecimento de 27 cadeias produtivas da sociobiodiversidade; a melhoria da gestão, criação, ampliação ou reconhecimento de 205 áreas protegidas; a implementação de incentivos financeiros inovadores; e o desenvolvimento de novos instrumentos legais voltados à conservação.
Um modelo com potencial de inspirar outros territórios

Para a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), o projeto representa uma oportunidade de fortalecer a Convivência com o Semiárido e ampliar o reconhecimento da Caatinga como um bioma estratégico para a adaptação às mudanças climáticas.
“Não tem Caatinga em outro lugar do mundo. O que esse bioma significa em termos de aprendizado das microvidas, dos povos e suas culturas, das plantas e dos animais que, ao longo de milhares de anos, foram se adaptando para chegar a esse estágio, é algo extraordinário. A Caatinga é uma grande escola de adaptação às mudanças climáticas e, infelizmente, essa escola está sendo destruída antes mesmo de ser conhecida”, alerta o coordenador executivo da ASA, Cícero Félix.
Para a ASA, no entanto, conservar a Caatinga significa também fortalecer os territórios e os povos que historicamente construíram formas de viver em equilíbrio com esse bioma. “Nosso maior desafio é contribuir para que os povos das Caatingas possam permanecer em suas terras e territórios. Para nós, não nos interessa a Caatinga em pé sem gente”, reforça Félix.
Ao integrar conservação da biodiversidade, geração de renda, fortalecimento territorial, inovação financeira e incidência em políticas públicas, o Redes pela Conservação pretende demonstrar que é possível combater o desmatamento valorizando as pessoas que vivem e cuidam dos biomas brasileiros. A expectativa é que as soluções desenvolvidas ao longo do projeto possam inspirar iniciativas semelhantes em outras regiões do Brasil e em países que enfrentam desafios comuns de conservação e desenvolvimento sustentável.



