A retomada do Programa Sementes do Semiárido segue se fortalecendo em diversas frentes e uma delas é o Projeto Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA). Nos dias 22 e 23 de setembro, organizações executoras da iniciativa estiveram reunidas em Areia (PB) para planejar os próximos passos do projeto até julho de 2027. Entre as ações previstas estão as oficinas de capacitação, feiras e ações de incidência política voltadas à conservação do milho crioulo.
O AgrobioSA é uma parceria entre a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A iniciativa faz parte do Programa de Apoio à Inovação Social e ao Desenvolvimento Territorial Sustentável (InovaSocial).
O projeto é construído junto a 2 mil famílias agricultoras dos estados de Alagoas, Bahia, Paraíba e Piauí, e representa o braço de pesquisa do Programa Sementes, um espaço em que são experienciadas novas ações de conservação e multiplicação de sementes crioulas. A partir dele, são gerados dados e informações sobre o Semiárido que podem tanto subsidiar famílias agricultoras no manejo cotidiano quanto fortalecer a incidência pela construção de uma Política Nacional de Sementes Crioulas.
Na prática, o AgrobioSA acontece na realização de oficinas, feiras, intercâmbios de experiências, testes de transgenia, produção de mudas e implantação de sistemas florestais adaptados ao Semiárido. Acontece em diálogo com a implementação das Tecnologias de Manejo da Agrobiodiversidade.
Os marcos da primeira etapa do projeto, que iniciou em setembro de 2025, foram justamente os processos de mapeamento e animação das casas de sementes nos territórios, o aperfeiçoamento de testes de transgenia e a implementação de um campo de multiplicação de sementes em Alagoas, que servirá de referência para os demais estados envolvidos.
“Queremos fortalecer a gestão das redes de casas de sementes. Nos reunimos para entender quais são as ameaças nos territórios e o que tem sido feito por cada organização, para saber os próximos passos”, explica Cláudio Ribeiro, assessor de coordenação do Programa Sementes do Semiárido, responsável por acompanhar o AgrobioSA na ASA.










Processos formativos
As perspectivas levantadas durante o seminário de planejamento vão orientar as oficinas previstas para a segunda etapa do projeto. No primeiro dia, o grupo aprofundou o olhar sobre a gestão dos bancos de sementes e o papel dos agricultores e agricultoras responsáveis por garantir a manutenção desses espaços. A experiência da Rede de Bancos Comunitários de Sementes do Território da Borborema serviu de referência para a reflexão sobre a importância desse papel.
“No nosso banco (de sementes) não tem só a nossa comunidade, tem outras. Muitas pessoas que tinham deixado de plantar algumas sementes, conseguiram através dele. Uma coisa que fazemos na comunidade para chamar mais pessoas para o nosso banco é falar do banco nas reuniões da associação de moradores todo mês. A gente fala que as pessoas podem pegar sementes, o jeito de pegar e o jeito de devolver”, explica Dona Ritinha, agricultora guardiã de Esperança (PB), durante apresentação.
A conversa se estendeu ao longo de toda terça-feira (22/09). As organizações executoras: Associação de Agricultores Alternativos (Aagra), Cooperativa de Pequenos Produtores Agrícolas dos Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs), Associação Regional de Convivência Apropriada ao Semiárido (Arcas), Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), Rede de Escolas Família Agrícola do Semiárido (Refaisa), AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e o Centro Regional de Assessoria e Capacitação (Cerac) debateram os desafios enfrentados e as soluções construídas a partir das experiencias do projeto.
A perda de variedades crioulas, o avanço de engenharias genéticas e a falta de acesso das famílias agricultoras às políticas públicas foram umas das questões levantadas.
“A gente busca esse olho no olho e integração entre as coordenações para nos atualizarmos sobre os processos do projeto nos territórios, reanimar as mobilizações locais”, aponta Fernando Curado, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios e coordenador do AgrobioSA, além das oficinas, estão previstos intercâmbios territoriais até o final deste ciclo do projeto.

Incidência política
Como anunciado desde o seu relançamento, em 2025, o AgrobioSA deve ser o ponto de partida para a criação da Rede de Proteção do Milho Crioulo, ação também prevista para a segunda etapa do projeto.
A estruturação da Rede está alinhada à implantação de bancos territoriais de sementes crioulas inspirados no modelo de “banco-mãe” utilizado pelas guardiãs e pelos guardiões do Polo da Borborema (PB). A iniciativa busca fortalecer os territórios e representa um instrumento concreto de diálogo com o poder público sobre a conservação e proteção das sementes crioulas.
Outra movimentação que está em diálogo com as ações do AgrobioSA é a criação de protocolos de conservação das sementes crioulas nos territórios, que incidam no uso do Consentimento Livre Prévio e Informado (CLPI), ferramenta legal que permite povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais aceitar ou recusar medidas, projetos ou leis que afetem seus territórios e modos de vida.


