Do outro lado do mundo, em Ulaanbaatar, na Mongólia, durante a COP 17 de Combate à Desertificação, o Brasil apresentou compromissos para recuperar terras degradadas, combater a desertificação e aumentar a capacidade das populações de enfrentar secas cada vez mais intensas. Nas próximas semanas, as brasileiras e os brasileiros irão às urnas escolher quem comandará o país e os estados e ocupará o Congresso Nacional e as assembleias legislativas.
Os dois acontecimentos parecem distantes, mas estão profundamente ligados. As decisões tomadas em uma conferência internacional só chegam à vida das pessoas quando se transformam em orçamento, políticas públicas, fiscalização, pesquisa, assistência técnica e garantia de direitos. É nas urnas que se escolhe quem terá poder para materializar essas propostas — ou para interrompê-las.
Na COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, o Brasil apresentou uma meta formada por 17 compromissos para evitar, reduzir e reverter a degradação da terra até 2030. O país prevê ações de recuperação e restauração em mais de 163 mil quilômetros quadrados. A dimensão do desafio também foi explicitada: aproximadamente 28% do território brasileiro apresenta algum nível de degradação e cerca de 39 milhões de pessoas vivem em municípios situados em áreas suscetíveis à desertificação ou em seu entorno. Os dados foram divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente durante a COP17.
Depois das eleições, esse compromisso muda de lugar: sai dos documentos internacionais e entra na disputa pelo orçamento e na implementação e fortalecimento de políticas públicas, impactando diretamente o destino dos territórios.

“Para o Semiárido, a pergunta já não é apenas o que o Brasil prometeu na COP17, mas sim: quem, entre as pessoas eleitas, assumirá a responsabilidade de cumprir essas promessas com participação social, transparência e respeito aos povos que há gerações produzem conhecimento sobre como viver nas terras secas?”, destaca Ivi Aliana Dantas, da coordenação executiva da ASA pelo estado do Rio Grande do Norte.
Afinal, metas não se realizam apenas com anúncios, mas dependem de escolhas políticas. Por isso, a escolha para presidente, governadores, senadores e deputados, também impacta nas respostas que o país oferecerá aos povos acerca da desertificação, das secas e da emergência climática. Para Ivi Aliana, “precisamos apoiar candidaturas que fortaleçam a agenda do combate à desertificação, tanto na compreensão do que ela significa, na visibilidade, mas também na incidência e na articulação para a captação de investimentos”.
Embora a emergência climática afete diretamente o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a saúde e a geração de renda, de acordo com a pesquisa do BTG/Nexus (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/09/eleitores-nao-polarizados-priorizam-saude-e-seguranca-aponta-btgnexus.shtml), realizada no início de setembro, o tema ainda não aparece entre as prioridades imediatas de parte do eleitorado. Mas na contramão do interesse da população sobre o tema, num momento tão crucial para o país, existe uma relação direta das questões envolvendo o clima, com a economia e com a vida cotidiana, sobretudo de quem vive no Semiárido.
Conhecimentos locais e tecnologias sociais
Segundo Luís Almeida, do Irpaa e que também esteve na comitiva da ASA na COP, ficou bastante evidente durante o evento que as comunidades locais e os territórios não precisam de soluções milagrosas, porque já existem conhecimentos e tecnologias apropriadas para se viver no local. O que precisa é reconhecimento e incentivo, especialmente financeiro, dos países. “Isso permitiria reduzir as vulnerabilidades socioambientais e aumentar a resiliência desses povos frente à emergência climática, impactando também na vida de quem vive nos grandes centros urbanos”, destaca.

Luís Almeida ainda explica que “paralelo à política de combate à desertificação, temos também a política de convivência com Semiárido nos estados, então todo o processo de regulamentação, de efetividade, de consolidação dessas políticas estruturantes, é importante para que a gente cobre dos governos, tanto no processo eleitoral, mas também após a eleição. Ao se combater a desertificação, avançamos nos processos de convivência com o Semiárido, e avançamos também nos processos de construção da própria democracia, de avanço democrático nos territórios”.
Não só da escolha dos representantes vive uma democracia
Um governo democrático faz diferença não apenas porque pode assumir metas ambientais mais ambiciosas, mas porque reconhece que a população precisa participar das decisões. A democracia oferece instrumentos para perguntar quem decide, quem se beneficia e quem é impactado. No Semiárido, essa participação é ainda mais necessária diante do avanço da desertificação, da disputa pela água e pela terra e da expansão de grandes empreendimentos de energia, mineração e infraestrutura, que muitas vezes chegam aos territórios sem consulta adequada às comunidades.
É por meio de mecanismos de controle social, a exemplo dos conselhos de meio ambiente, de segurança alimentar, de desenvolvimento rural e de recursos hídricos, além da Comissão Nacional de Combate à Desertificação, que a sociedade pode acompanhar políticas e orçamentos, denunciar violações e influenciar decisões. Quando esses espaços são enfraquecidos, esvaziados ou interrompidos, os territórios perdem capacidade de participar e de cobrar do Estado a proteção de seus direitos.
Ivi Aliana lembra que “a experiência da ASA mostra que as políticas mais transformadoras são aquelas construídas com as comunidades, reconhecendo seus conhecimentos e fortalecendo sua autonomia. Recuperar terras ou produzir energia renovável, por exemplo, sem ouvir quem vive nesses lugares pode apenas revestir de verde processos antigos de concentração fundiária, expulsão e violação de direitos”.


