Webinário de encerramento do projeto Cisternas, Água e Saúde destaca papel da juventude na comunicação do Semiárido

Iniciativa mobilizou jovens do Semiárido baiano para transformar dados científicos sobre impactos do Programa Cisternas em materiais de comunicação

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Por Lívia Oliveira (Cidacs)

“Eu não vou conviver com a seca, eu vou conviver com o semiárido, com seu povo, com sua gente, com suas perspectivas, suas esperanças, suas festas, seu modo de viver.” Foi com essa fala que Naidison Baptista, da Coordenação Executiva da Articulação Semiárido (ASA) na Bahia, provocou a reflexão de todos os presentes no evento de encerramento do projeto Cisternas, Água e Saúde.
A iniciativa estuda os impactos do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) na saúde e integra a Plataforma Cidacs-Clima e a Unidade de Pesquisa em Saúde Global do National Institute for Health and Care Research (NIHR) sobre Determinantes Sociais e Ambientais das Desigualdades em Saúde (SEDHI).

O encontro, realizado no dia 15, à tarde, e marcou a terceira e última fase do projeto, e contou com uma mostra de trabalhos produzidos por jovens comunicadores do Semiárido baiano. Transmitida ao vivo pelo YouTube, a programação foi dividida em quatro momentos: roda de conversa sobre a origem do projeto, falas de convidados externos, apresentação dos materiais de comunicação produzidos e uma síntese final.

Além da ASA, o projeto tem como parceiros a Cooperativa de Assistência à Agricultura Familiar Sustentável do Piemonte (COFASPI), o Centro de Convivência e Desenvolvimento Agroecológico do Sudoeste da Bahia (CEDASB), a Fundação de Apoio à Agricultura Familiar do Semiárido da Bahia (FATRES), o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC).

Os jovens participantes receberam suporte de mentores dessas organizações parceiras. Durante as apresentações, explicaram o processo de criação de produtos de comunicação que incluíram entrevista em rádio, boletim informativo e vídeos educativos de curta duração, e demonstrou como as cisternas promovem impactos na saúde e na autonomia.

Arte do evento virtual que encerrou o projeto

Por trás dos produtos

O processo de produção dos materiais de comunicação do projeto foi baseado na co-construção e na educomunicação, pilares que permitiram transformar os dados científicos produzidos pelo Cidacs em narrativas sociais. Os jovens realizaram estudos sobre seus próprios territórios e ouviram suas comunidades. Além disso, houve uma preocupação em ir além dos dados quantitativos, buscando relatos sobre os “superpoderes das cisternas” na saúde e dignidade.

“É um programa que mais que garante água para beber, é uma iniciativa que tem impactos multidimensionais na vida, como na alimentação, educação, na renda, no bem-estar emocional e também na capacidade das comunidades de permanecerem em seus territórios, tendo, portanto, um impacto significativo, considerando que todos esses vários poderes têm impacto significativo na saúde da população”, observou o pesquisador do projeto, Paulo Victor Maciel.

Os produtos que foram apresentados no webinário começaram a tomar forma bem antes das gravações, entrevistas e edições. O ponto de partida foi a oficina de imersão realizada em janeiro deste ano, em Feira de Santana (BA), que reuniu pesquisadores do Cidacs, representantes das organizações parceiras, mentores e os jovens comunicadores para discutir os impactos das cisternas na vida das comunidades do Semiárido baiano.

A partir desse encontro, as cinco duplas formadas por jovens e mentores tiveram cerca de quatro meses para transformar evidências científicas e vozes do território nos produtos de comunicação. A proposta inicial de muitos grupos mudou ao longo do caminho. Conforme entrevistas, visitas de campo e conversas com as comunidades aconteciam, novos temas surgiram e redirecionaram as produções.

Para Kelly Dias, jovem comunicadora do CEDASB, que produziu o minidocumentário “Por que permanecer?”, a oficina de imersão direcionou a sua produção. “Desde a imersão, lá em Feira de Santana, e com base nos diálogos que a gente foi tendo e com os eixos temáticos que foram apresentados para nós, eu achei dois que me chamaram muita atenção, que eram sobre a educação e sobre a permanência no território. Envolvia a parte mais básica do ser humano, que é o ensino. Eu quis trazer isso para dentro da minha realidade”, afirmou.

Nessa perspectiva, cada organização encontrou uma abordagem própria. No IRPAA, o olhar de Jaciara Tuxí e Danilo de Souza se voltou para as mulheres e para o artesanato, e veio em forma de um boletim escrito e um vídeo curto. Na COFASPI, Maria Crislane e Milena Carvalho resgataram a memória de três gerações de mulheres para contar as transformações vividas pela comunidade de Coqueiros em Mirangaba/BA ao longo do tempo, através de um minidocumentário.

Já Maria Raiele e Cristina de Almeida, da FATRES, apostaram em conteúdos voltados para o rádio e em um vídeo curto, buscando alcançar principalmente o público idoso presente nas feiras livres da região.

“A nossa ideia era justamente trazer esse semiárido de uma forma diferente do que a gente via nas grandes mídias, mostrar o nosso lugar, o nosso povo, as nossas culturas”, enfatizou um dos jovens, Breno Santiago (MOC), que produziu vídeos curtos humorísticos e educativos sobre como o acesso a água impactou a saúde das comunidades.

Ele também aproveitou a sua fala para revelar que o processo ultrapassou a produção de conteúdos e se transformou em uma oportunidade de reencontro com as próprias histórias e identidades. “Fazer esse vídeo e podcast, foi voltar a estudar sobre o meu lugar, sobre mim mesmo, a importância de saber mais sobre nós mesmos”, relatou.

Registros dos jovens em campo fazendo as entrevistas e gravações para contar as histórias das comunidades a partir da chegada das cisternas | Fotos: Acervo pessoal

Por quê comunicar sobre as cisternas

Para o pesquisador José Firmino, reduzir as cisternas à função de armazenar água é ignorar parte importante de seu impacto. No evento, ele destacou que a tecnologia social transforma a vida cotidiana das famílias do semiárido, especialmente em regiões atravessadas pela irregularidade das chuvas, pelo acesso limitado a serviços públicos e por desigualdades históricas.

Essa compreensão orientou a construção do projeto, e a escuta da juventude foi muito importante nesse processo. “Ouvir os jovens foi fundamental para compreender de que forma o acesso à água altera as expectativas sobre o estudo, sobre o trabalho, sobre a permanência ou a migração”, afirmou.

Para os participantes, comunicar também significa disputar sentidos. Crislane, que entrevistou a matriarca da comunidade e sua mãe, enfatizou que foi importante trazer as diferentes experiências para retratar o poder das cisternas. Para ela, é necessário “ver o que mudou e o que não mudou e valorizar mais essa identidade do semiárido”.

Sendo um dos objetivos do projeto aproximar a ciência das comunidades, os jovens ajudaram a traduzir evidências acadêmicas para a linguagem do cotidiano. “Trazer esses dados científicos e mostrar para as pessoas que às vezes o que elas entendem numa fala normal é baseado num dado que foi estudado por pessoas”, observou Kelly Dias.

Um dos pontos principais e conhecimentos deixados ao final da experiência foi o poder da comunicação como uma ferramenta de mobilização. “A gente vem pensando dentro do Cidacs há alguns anos formas de como é que a gente pode aproximar a ciência da sociedade, de como é que a gente derruba esses muros, que foram ao longo da história construídos. Eles separaram essas duas instâncias que são tão importantes de trabalharem juntos”, pontuou Adalton Anjos, líder do Engajamento do Cidacs.

“Ao trabalhar o tema das cisternas, da juventude, a gente percebe a força que a juventude tem na hora da gente poder aprender e impulsionar ainda mais os nossos resultados de pesquisa, entender como é que a pesquisa dialoga com essas experiências”, destacou.

Ao fim, ficou o convite para todos acessarem a página especial do projeto Cisternas, Água e Saúde e checar os materiais produzidos pelos jovens, na aba “Vozes do território”.

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