No Semiárido, 8 em cada 10 famílias com água para produção superaram a insegurança alimentar e nutricional

Levantamento inédito da ASA revela impacto do P1+2 após a retomada do Programa Cisternas executado pela sociedade civil com apoio do governo federal entre 2023 e 2025

Compartilhe!

Kleber Nunes | ASACom

Em 2023, sete em cada dez famílias agricultoras do Semiárido brasileiro, elegíveis para o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), viviam em situação de insegurança alimentar e nutricional. Essa realidade se inverteu, em um intervalo de apenas dois anos, e o acesso à comida de verdade passou a ser considerado “regular”, “alto” ou “muito alto” por oito em cada dez famílias beneficiadas pela cisterna de produção ou barragem subterrânea.

Os dados fazem parte do levantamento inédito do P1+2 – iniciativa da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), executado no âmbito do Programa Cisternas com apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A novidade está na metodologia que permitiu que as próprias famílias beneficiadas avaliassem os impactos da ação.

Também foram analisados como positivos a capacidade de armazenamento de água, a produção e o estoque de forragem, o acesso a outras políticas públicas, a divisão sexual do trabalho doméstico e a participação social das famílias. Em todos os critérios, os índices “regular”, “alto” e “muito alto” superam os de “baixo” e “muito baixo” registrados quando o P1+2 estava recomeçando. Além disso, a qualidade das implementações teve em média 95% de aprovação.

“Antes de receber a cisterna ou a barragem subterrânea, a família passa por um processo de formação e uma das etapas é o Diagnóstico de Agroecossistema, que identifica tudo que existe de produção na propriedade. Depois de implantada a tecnologia, os técnicos voltaram para atualizar essas informações e a família pode fazer a comparação. Portanto, essa é uma avaliação real do trabalho e do que esses agricultores pensam e vivenciam com o programa”, explica o coordenador do P1+2, Antônio Barbosa.

O estudo chamado de “Avaliação Qualitativa de Atributos Sistêmicos” foi apresentado durante a Oficina de Avaliação do P1+2, entre os dias 15 e 17, em Gravatá (PE) aos representantes legais e técnicos das 29 organizações da ASA responsáveis por executar o programa. O evento contou com a participação do coordenador-geral de Acesso à Água do MDS, Vitor Leal Santana e da coordenadora de Articulação para Inclusão Produtiva Rural da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan/MDS), Gabriela Cavalcanti Cunha.

“Para o MDS é muito importante estar celebrando, depois de dois anos e meio, o processo de retomada do Programa Cisternas. Estamos falando de mais de 6 mil famílias beneficiadas com água para a produção numa integração com o Programa Fomento Rural, que buscou transformar a vida das pessoas, e a gente pode acompanhar nos dados apresentados os efeitos muito significativos na vida dessas pessoas”, avalia Vitor.

De acordo com Barbosa, a pesquisa considerou os dados de 50% dos diagnósticos atualizados até março deste ano pelas entidades executoras. 

No total, o Termo de Colaboração (TC) 944934/2023 firmado entre a Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC) – personalidade jurídica que faz a gestão dos programas da ASA – e o MDS beneficiou, por meio do P1+2, 6.022 famílias agricultoras no interior do Nordeste e de Minas Gerais, com um investimento total de R$ 37,5 milhões.

Criação de galinhas foi o projeto produtivo implantado pela maioria dos beneficiários do P1+2 e Fomento Rural | Foto: Kleber Nunes/Acervo ASA

P1+2 e Fomento Rural ampliam diversidade produtiva do Semiárido

Pela primeira vez, um convênio entre a Rede ASA e o MDS juntou as tecnologias de acesso à água para produção (segunda água) com o Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais (Programa Fomento Rural), garantindo a transferência financeira não reembolsável de R$ 4,6 mil para cada família. O estudo da Articulação mostra que a execução simultânea das duas políticas públicas de Convivência com o Semiárido levou a um aumento da diversidade produtiva dos territórios.

Segundo o levantamento da ASA, antes do P1+2 e do Fomento Rural, a variedade da produção era “baixa” ou “muito baixa” para 71,5% das famílias. Depois da segunda água e do recurso financeiro, esse cenário mudou e 82,2% das agricultoras e dos agricultores consideram “regular” ou “alto” a diversidade de itens agrícolas produzidos em suas propriedades.

Conforme a pesquisa, a maioria das famílias (42,1%) optou por investir o Fomento Rural em projetos produtivos voltados à criação de aves, enquanto 38% aplicaram o recurso na implantação e estruturação de hortas, e outros 20,7% optaram pela criação de suínos. Pomar (14,2%), criações de bovinos (7,2%) e caprinos (5,3%), roçado (4,4%), plantas medicinais (1,6%), produtos beneficiados e artesanato (0,07%) e outros projetos (11,8%) completam a lista de subsistemas.

“O sentimento é de alegria do dever cumprido depois de executarmos o termo [de colaboração] que teve essa novidade de juntar a cisterna com o Fomento Rural e possibilitou às famílias, junto com os técnicos, potencializar projetos produtivos que já tinham ou começar uma nova produção. Esperamos poder continuar atendendo nosso povo no Semiárido”, ressalta o coordenador do P1+2 da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato (PI), Heronildes Paes.

Para a coordenadora do Centro de Apoio Comunitário Cactus, de Alagoas, Maria da Paz Pimentel, os resultados do levantamento da ASA mostram a concretização do sonho das famílias que buscavam ter mais autonomia para produzir no Semiárido. “E tudo isso parte do direito ao acesso à água. Sem água não seria possível a essas famílias terem essa diversidade de projetos produtivos que geram vida em suas propriedades”, diz.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *