São quase três décadas de convivência com o Semiárido, tempo que atravessa a vida das mulheres desse território trazendo muitas conquistas, dividindo águas entre o que precisa ficar no passado e aquilo que é inegociável para o presente e o futuro.
Entre os dias 10 e 12 de agosto, em Gravatá (PE), no Encontro de Agricultoras para a Produção de Alimentos Saudáveis, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) resgatou a sua história e debateu, sobretudo, a respeito do combate à violência contra a mulher e sobre a divisão justa do trabalho do cuidado.
A Articulação deu um dos saltos mais importantes deste ano, escrevendo uma carta política com as principais reivindicações das mulheres do Semiárido para as Eleições 2026 e o próximo período. O documento foi construído durante esses três dias, por mais de 150 mulheres participantes do evento, vindas de todos os estados da região.
Confira a carta na íntegra:
Diálogos feministas

Para abrir o encontro, mulheres da ASA e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) trouxeram suas experiências pautando os desafios de ocupar os espaços políticos, no painel “Ser mulher num mundo de homens”.
Valquíria Lima, da coordenação executiva da ASA, demarcou o evento como um “espaço onde queremos escutar as histórias de vida das mulheres”. “Para além de dados, números e estatísticas, fizemos esse encontro para nos escutarmos. Vermos essa conjuntura com olhar de desafio, mas também de esperança.”
Neste sentido, Beth Cardoso, do GT de Mulheres da ANA, falou da sua experiência como mulher negra desde o período acadêmico, quando cursou Agronomia, até os dias de hoje. “Eu nunca conseguiria ocupar espaço nenhum se não metesse o pé na porta, nunca vi ninguém dar nada para as mulheres. A auto-organização das mulheres é o que me fortaleceu para estar nesses espaços (de coordenação) e, na minha vida pessoal, eu não teria ido a lugar nenhum se não fossem as mulheres da minha família”, contou.
Já a agricultora e liderança sindical do Polo da Borborema, Maria do Céu Batista, relatou como a vida política e pessoal se atravessam. “O povo diz ‘Céu, com esse teu trabalho, ninguém aguenta ficar contigo’. E eu digo: claro, porque eu tenho que sair de casa para poder construir ele. É assim que a gente tem que viver a nossa vida, sair para entender e se fortalecer como mulheres”, lembrou.
Para a assessora estadual da ASA Ceará, Neuzilane Oliveira, também presente no painel, o evento trouxe uma ‘missão’. “A gente sai desse encontro com a missão de ocuparmos mais espaços de poder e incentivar outras mulheres. Nos animarmos, nos desafiarmos.”
Mulheres e convivência

O encontro contou também com o carrossel de experiências “Mulheres construindo a convivência com o Semiárido para além das tecnologias sociais”, que encantou a atenção das mulheres presentes. Uma das experiências apresentadas foi a do Museu dos Povos Indígenas do Piauí Anízia Maria (MUPI), criado em 2016.
“O Museu mudou a vida no território, porque antes os filhos das famílias estavam todos indo embora e a gente estava vivendo uma vida que não era a nossa. O pessoal ia morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro e a gente aprendia mais sobre o que era de fora. Eu vi a comunidade se reerguer e entender o que cada um iria fazer para mudar e hoje, fora as tarefas do Museu, quase todo dia tem reunião, às vezes para apenas conversar e descansar um pouco”, explica a artesã e educadora popular e diretora do MUPI, Dinayana Tabajara.
Para além do que trouxe Dinayana, mulheres de Pernambuco relataram a experiência da Associação de Mulheres da Gameleira e o estado do Ceará trouxe a experiência do seu beneficiamento do coco em Itapipoca.
A Paraíba apresentou a construção da Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia e o Maranhão contou do intercâmbio de mulheres de Codó, que trabalham com quintais produtivos e piscicultura.
Quem cuida de quem cuida?
A pergunta norteou o debate sobre a Política Nacional de Cuidados, num instrumento que reconhece o cuidado como direito humano, trabalho e bem público.
A coordenadora do Centro de Ação Cultural (CENTRAC), Madalena Medeiros, mediou o momento e apontou como o feminismo popular enxerga este instrumento. “Queremos que o cuidado esteja no centro. A auto-organização é extremamente importante para isso, porque não queremos terceirizar o trabalho do cuidado para outras mulheres.”
Ainda na mesma tarde, as mulheres dialogaram sobre a construção da política de salvaguarda da ASA, uma iniciativa preventiva de combate ao abuso, exploração e negligência nos espaços de atuação da Articulação.
Disputa de narrativas

Durante a progranaçao do segundo dia, o painel “Narrativas de mulheres do Semiárido: as histórias que são nossas e ainda ecoam” colocou a comunicação na centralidade da conversa.
A agricultora e liderança do Movimento da Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE), Elizete Pereira, falou da invisibilidade do trabalho das mulheres nas narrativas hegemônicas contadas pela mídia sobre o Semiárido e o campo de maneira geral. “É desgastante para nós que produzimos e damos vida, que fazemos a vida acontecer. Os homens têm uma maneira de aparecer, mas quem faz somos nós e não aparecemos.”
A assessora de coordenação da ASACom, Gleiceani Nogueira, também integrou o painel. Ela afima que essa problemática trazida por Elizete fica evidente na mídia comercial. “A mídia comercial quer sempre mostrar a miséria. Mas, a gente está aqui para mostrar a convivência com o Semiárido.”
O painel incentivou as agricultoras a contarem suas histórias de vida cada vez mais, seja na comunidade ou nas redes sociais. A se apropriarem do ato de contar sobre si.
Eleições 2026
A leitura da Carta Política de Mulheres da ASA encerrou o evento. . Antes de sua leitura, o painel “O Brasil que cabe no nosso futuro, da luta de Margarida ao Brasil que queremos” deu o tom de continuidade para todos os debates que surgiram no encontro.
“É significativo que estejamos aqui com a maioria de agricultoras experimentadoras, mulheres que todos os dias mudam o Semiárido para que ele seja mais digno. Precisamos continuar sonhando com isso e lutando”, demarca Roselita Vitor, agricultora e integrante da coordenação executiva da ASA.





















A força da comunicação é algo mágico.. nos leva a vivenciar experiências através do olhar da/o comunicador ..
Parabéns equipe ASA pelos registros..