Kleber Nunes | Asacom
ASA espera que na COP30 sociedade civil quebre paradigmas e Estados decidam salvar o planeta
Articulação quer contribuir para mudar a lógica de negociações trazendo os povos do Semiárido às mesas de decisão
Com o lema “Convivência é nosso jeito de mudar o mundo”, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) está na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que começou nesta segunda-feira (10) e segue até dia 21, em Belém (PA). Estreando como organismo da sociedade civil na delegação brasileira, a rede – formada por mais de 3 mil entidades -, vai atuar para colocar o Semiárido no centro dos debates sobre a emergência climática.
A expectativa da ASA é propor soluções reais de mitigação e adaptação ao clima desenvolvidas pelos povos que vivem no interior da região Nordeste e norte de Minas Gerais, e garantem geração de trabalho e renda com equilíbrio ecológico na Caatinga e no Cerrado. Essas experiências serão apresentadas nos espaços da Zona Verde e da Zona Azul, onde se concentram as discussões voltadas à implementação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) do Brasil.
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“A adaptação é uma questão central para políticas climáticas, e é preciso garantir distribuição equitativa de benefícios, responsabilidades e soluções de mudanças climáticas; reconhecer saberes e considerar a participação das pessoas nos processos decisórios. É importante que a gente entenda que mudanças climáticas e pobreza caminham juntas, ou seja, os mais impactados são as populações mais pobres e mais vulneráveis”, afirma a coordenadora executiva da ASA, Valquíria Lima.
Ao mesmo tempo que defende uma inversão da lógica de negociações trazendo os homens e mulheres que estão nos territórios mais vulneráveis às mudanças climáticas para a construção de novos acordos, a ASA também denuncia para a comunidade internacional as violações que esses produtores rurais de base agroecológica sofrem. Nessa pauta estão, por exemplo, os grandes empreendimentos de energias renováveis, a instalação de data centers, a mineração, os agrotóxicos e a multiplicação de sementes transgênicas.
O veredeiro e extrativista, Santino Lopes de Araújo é um dos milhões de trabalhadores rurais do Semiárido que espera que a COP30 provoque mais ações e menos promessas. Ele, que no interior de Minas Gerais sente na pele os efeitos da emergência climática, cita como exemplo a segurança hídrica, direito básico historicamente ameaçado pela sanha predatória de quem financeiriza os bens comuns, como a água.
“Os rios vão secando, as nascentes vão secando as veredas e as comunidades vão sofrendo com a falta de água. Quando seca a água, há um problema sério. Nós temos que lutar pela defesa da água dos rios, das nascentes, porque ela é para todos os seres da natureza, a flora e fauna dependem dessa água”, denuncia Santino, que representa a Associação Central dos Veredeiros no Conselho Nacional do Ministério do Meio Ambiente (Conama).
Para o coordenador executivo da ASA, Cícero Félix a articulação, que há pelo menos 26 anos vem mudando o Semiárido brasileiro, entende que o cenário não é mais de “mudanças climáticas”, mas sim de “emergência climática”. Essa compreensão, contudo, ainda não está “nas rodas de conversa, nos bares, nas feiras e nas igrejas”.
“A população precisa encarar esse tema como ele merece ser encarado. Ao mesmo tempo que eu vejo esse momento das grandes contradições, vejo também a COP como um meio. Nós precisamos debater muito onde a gente tiver a oportunidade e nós vamos. Em qualquer lugar que a gente esteja, vamos defender o nosso projeto político amplificando as vozes dos territórios e fazendo as denúncias necessárias e urgentes”, explica Félix.

“Zona Vermelha”
A ASA é uma das redes que compõem a Cúpula dos Povos, um espaço de diálogo popular que reúne as mais diversas representações da sociedade civil com o objetivo de incidir na conferência climática da ONU. Félix argumenta que, mais do que nunca, esse espaço precisa ser potencializado e ainda mais visibilizado se ainda houver o compromisso de salvar a vida no planeta.
“A Cúpula dos Povos é a ‘Zona Vermelha’ apesar de não aparecer assim [na programação oficial]. Esse é um evento para a gente subverter a ordem que está colocada de representatividade dos povos, pois a maioria dos que estão ali dentro da COP não nos representa. Devemos dar muito destaque à Cúpula dos Povos, que é o enfrentamento não ao conteúdo, mas ao modelo de participação da COP”, diz.
Além dos atos públicos, como a barqueata e a marcha da Cúpula dos Povos, a ASA estará defendendo a convivência com o Semiárido e apresentando soluções para o mundo no painel “Água e agroecologia: diálogos com os territórios nas perspectivas de ações das mitigações as emergências climáticas”, marcado para às 14h, desta quinta-feira (13), no Espaço Chico Mendes e Fundação BB.
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Agricultura Familiar
Junto com ASA, nesta edição da COP do Clima também a agricultura familiar está estreando como um dos setores destacados para contribuir com o documento final da conferência. O tema tem pela primeira vez um enviado especial, Paulo Petersen, que atua como diretor executivo da AS-PTA, organização que faz parte da ASA, e integrante do núcleo executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da diretoria da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia). A chegada da agricultura familiar três décadas depois da realização das COPs está sendo marcada pelo lançamento da campanha “A gente é diferente. A gente é agricultura familiar” apoiada no Manifesto em Defesa da Agricultura Familiar (clique aqui para ler o documento).


