Programa Sementes inova com Tecnologia de Manejo da Agrobiodiversidade

ASA quer garantir sementes crioulas para consumo próprio das famílias, multiplicação e venda

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Helena Dias | ASACom

Chuva demais em pouco espaço de tempo e estiagens prolongadas fora do costume. É na intensidade e imprevisibilidade que as mudanças climáticas se fazem presentes no Semiárido e isso impacta diretamente na produção de alimentos nos territórios.

Neste contexto, as sementes crioulas ocupam um lugar ainda mais importante na garantia da segurança alimentar e nutricional para o povo do Semiárido. Por serem adaptadas às características climáticas de cada território, livres de veneno e transgenia, sementes crioulas carregam a capacidade de serem resilientes diante do clima. Têm mais possibilidades de resistir a extremos e dificuldades nas condições de plantio.

Pensando nisso, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) retomou o Programa Sementes do Semiárido, no início de 2026, com a tarefa de revitalizar a sua rede de mais de 1.000 casas e bancos comunitários de sementes crioulas – iniciativa que vem sendo realizada por meio do projeto Agrobidiversidade do Semiárido e outras parcerias com o poder público – e criar novas casas que fazem parte de uma inovação chamada “Tecnologia Comunitária de Manejo da Agrobiodiversidade”.

Essa inovação parte de uma constatação feita junto às famílias agricultoras de que, para garantir a multiplicação e armazenamento de sementes, é necessário água e estruturas que vão para além do espaço para estoque em si. Daí, nasce a proposta de implementar conjuntamente:

  • Campos de multiplicação de sementes com cerca de 400m² a 500m² para preservar a variabilidade genética, característica que garante a capacidade de resiliência das sementes;
  • Cisternas com capacidade para 30.000 litros com foco em abastecer os campos de multiplicação de sementes. As sementes precisam de água e nutrientes em fartura para se desenvolverem bem;
  • Casas e bancos comunitários de sementes com espaço para armazenamento, beneficiamento, limpeza, pesagem, troca, controle das sementes. E também espaço para reuniões comunitárias. A estrutura da casa contribui para a manutenção da mobilização comunitária em torno da defesa da agrobiodiversidade;
Tecnologia de Manejo da Agrobiodiversidade
Associação Samambaia, em Custódia (PE). Foto: Adriana Noya

Ao todo, são 229 Tecnologias Comunitárias de Manejo da Agrobiodiversidade a serem implementadas em 67 municípios. Atualmente, o Programa Sementes do Semiárido está sendo executado em integração com o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), e juntos vão beneficiar cerca de 4.580 famílias em 116 territórios do Semiárido brasileiro.

O principal objetivo é garantir sementes crioulas para consumo próprio, multiplicação e venda, para apoiar outros territórios. “A maior expectativa é que os territórios do Semiárido possam se tornar mais autônomos em relação ao abastecimento de sementes crioulas, e que eles se tornem menos dependentes da busca por sementes, seja no mercado convencional ou a partir da ação do Estado”, explica Maitê Maronhas, assessora de coordenação do Programa Sementes.

A iniciativa também está articulada com políticas públicas, em especial as políticas para abastecimento, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Recentemente, em articulação com a rede ASA, o PAA comprou cerca de R$4,8 milhões em sementes crioulas, que foram destinadas a casas desarticuladas durante a pandemia da Covid-19, no Semiárido.

“O PAA é uma política pública que dinamiza o abastecimento das casas de sementes. E é também muito importante a troca de sementes nas próprias comunidades, as feiras de sementes, a doação de sementes e as próprias famílias agricultoras devolvendo sementes para as casas”, destaca Maitê.

A comunidade do Quilombo Vaquejador, no município de Piripiri (PI), é uma das comunidades envolvidas. O agricultor José Veríssimo, de 62 anos, mora lá e conta que a tecnologia vai impactar não só a sua, mas muitas outras comunidades.

“É uma casa de sementes que vai atender a região como um todo, tem um grande valor porque é a partir daí que vamos selecionar melhor as sementes para o plantio. Só a nossa comunidade tem 65 famílias, o Quilombo Marinho tem mais de 90 e as comunidades de Carnaúbas e Murici também vão precisar desse banco”, detalha o agricultor.

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