Quem é um ativista climático para você?

O que faz alguém que defende a causa do clima?

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Helena Dias | ASACom

Para responder essa pergunta, provavelmente, o seu imaginário recorreu a pessoas brancas, jovens com cartazes e megafones, ocupando alguma avenida importante de uma cidade europeia. Cartazes em inglês, céus cinzentos e prédios escuros.

Quase ninguém imagina uma agricultora familiar do Semiárido cercada de verde, mostrando a sua área de recaatingamento, que abriga as mais variadas espécies de bichos e plantas da Caatinga.

Ninguém imagina uma jovem agricultora viveirista do Agreste da Paraíba, junto às suas mudas de aroeira e barriguda, ocupando o centro do município de Esperança (PB), para contar a sua experiência.

Ninguém imagina quando a pergunta surge, mas Dona Francisca e Cidinha são duas agricultoras que convivem com o Semiárido e combatem a desertificação, assim como milhares de outras pessoas nessa região. Uma população que tem muito a dizer sobre viver num clima mais hostil.

Você não imagina, mas elas se veem como defensoras dessa causa…

Quem é um ativista climático no imaginário brasileiro?
Agricultora Maria Francisca da Silva, conhecida como Dona Francisca (Piranhas-AL). Foto: Acervo/Coppabacs

Dona Francisca, de 56 anos, se apresenta como “defensora da natureza”. “Eu me vejo e não é uma coisa normal, não. Você não me acha em casa, só me acha no meio da Caatinga. Eu sou agricultora, parteira, benzedeira e curo com as plantas. Sou uma mulher negra com muito orgulho”. Diz ela enquanto explica o motivo de não atender o telefone rápido: acabava de plantar mais de 500 mudas da Caatinga no seu sítio, para expandir a área de mata preservada que atualmente tem cerca de um hectare.

Francisca e sua família dividem o trabalho entre três agroflorestas — cultivo de plantas agroecológicas com espécies florestais —, um viveiro de mudas da Caatinga e um canteiro com plantas medicinais. Também na criação animal, no cuidado com o banco comunitário de sementes e até na lida do tanque de tilápias. E ela ainda é liderança sindical.

Essa rotina se transformou com a chegada da cisterna de primeira água e depois a de produção, Francisca lembra que há 20 anos caminha junto com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), por meio da assessoria da Cooperativa dos Pequenos Produtores Agrícolas e Bancos Comunitários de Sementes (COPPABACS).

Cidinha, 21 anos, fala que “aprende todo o dia com a Caatinga”, desde que começou com o viveiro em 2016. A agroecologia e a convivência com o Semiárido fazem parte da vivência cotidiana da sua família.

Quando perguntada sobre ser defensora climática, ela diz: “Eu me vejo. Como eu estou fazendo bacharelado de Agroecologia, explico na aula que as [torres] eólicas desmatam muito, que faz mal para as pessoas que vivem da agricultura. Quando eu comecei no viveiro, eu não tinha o conhecimento que eu tenho agora, é o que me faz continuar. Eu quero continuar a mostrar para as pessoas que a gente tem que preservar nossos biomas”.

Para ela, ser viveirista significa a possibilidade de permanecer no campo. “O que me motiva é estar morando no sítio, vivendo essa adaptação. A forma como fazemos para ter alimentos e os alimentos dos animais. Para ter recursos e ficarmos aqui [no território]”. Cidinha faz parte do Polo da Borborema, um coletivo sindical que também constrói a rede ASA.

Quem é um ativista climático no imaginário brasileiro?
Agricultora Maria Aparecida da Silva, conhecida como Cidinha (Solânea-PB).
Foto: Inês Campelo/MZ Conteúdo

Ao entrevistá-las, a palavra “ativista” parece pequena diante da diversidade dos quem são os sujeitos políticos e as sujeitas políticas da causa climática.

Nos últimos 30 anos, a convivência com o Semiárido travou diariamente uma disputa de narrativas para a sociedade, cravou na história que a seca não é uma questão de combate. Mas, ainda hoje, esse modo de viver o território luta incansavelmente por políticas públicas e para combater a desigualdade regional e a xenofobia.

Foi preciso mais de um milhão de cisternas e toda a resiliência de um povo para provar que se vive bem no Semiárido. Hoje, ainda é necessário lembrar que a Caatinga é uma floresta. Que o modo de viver da agricultura familiar de base agroecológica está intimamente ligado com a capacidade de adaptação climática da humanidade.

E que as mulheres protagonizam o sustento da vida nos diversos territórios, enquanto as juventudes do campo apontam caminhos necessários.

O tempo se atualiza e essa disputa também toma novas vestes. É preciso questionar: por que, na maior parte do imaginário brasileiro, agricultoras como Dona Francisca e Cidinha ainda não se tornaram símbolos de adaptação e mitigação climática? E, por isso, muitas vezes não são ouvidas como exige a urgência dos cuidados com os povos e a natureza.

Quem é um ativista climático no imaginário brasileiro?
Mulheres Munduruku denunciam na COP30 o mercúrio do garimpo ilegal em seus corpos e nos de seus filhos. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

É certo que esse imaginário se deslocou de maneira expressiva no último ano. Povos indígenas brasileiros e tantos outros do mundo ocuparam a Cúpula dos Povos e a 30ª Conferência das Partes (COP30) com uma resiliência ancestral de quem enfrenta o capitalismo há mais de 500 anos. A Zona Azul, destinada aos chefes das nações, não estava como de costume.

Para além da cor da pele e das raízes nos saberes ancestrais, o que conecta Dona Francisca e Cidinha a esses povos é justamente a decisão política de conviver com os seus territórios. É também o modo de fazer agricultura, a agricultura familiar e agroecológica.

Não é à toa que o Semiárido brasileiro é o mais povoado do mundo, com cerca de 31 milhões de habitantes. É onde está concentrada 28% da agricultura familiar e 80% da população quilombola do país. Agroecologia, convivência, adaptação e mitigação climática só são possíveis com gente. E que gente é essa?

Os sujeitos e sujeitas da causa climática não são governos, apesar da total responsabilidade. Não são os biomas sozinhos, por mais importantes e preciosos que sejam. O protagonismo é das gentes, povos que escolheram a profissão milenar da agricultura como modo de viver, permanecer e transformar seus territórios.

Pessoas que dedicaram e dedicam a vida para conquistar políticas públicas concretas pautadas nos reais anseios da população. Políticas que são reconhecidas como promotoras da convivência com o Semiárido e agricultura familiar, mas que deveriam ser estruturadas também como política de adaptação e mitigação climática.

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