Além da cisterna: conheça seis tecnologias sociais de produção e estocagem do Semiárido
As estratégias de adaptação e resiliência das agricultoras e dos agricultores do Semiárido brasileiro vão muito além do estoque de água
Kleber Nunes | ASACom
Qual a primeira imagem que vem à mente quando pensamos em tecnologia social de Convivência com o Semiárido? Muito provavelmente, visualizamos a cisterna branquinha ao lado de uma casa, compondo aquele cenário colorido e cheio de vida de uma propriedade agroecológica. Não é à toa, afinal esse reservatório, símbolo da democratização do acesso à água e de resistência à falácia do “combate à seca”, transformou a vida de milhares de famílias agricultoras.
Mas a convivência com o Semiárido vai muito além do armazenamento de água. Na verdade, a cisterna muitas vezes precede a implantação de outras estruturas que, inclusive, não tem como finalidade o estoque de água, mas são importantes para construir ou fortalecer agroecossistemas sustentáveis.
No âmbito das tecnologias de produção e energia, a agricultora e o agricultor podem contar com Fogão Ecológico ou Ecoeficiente, o Biodigestor, o Sistemas de Reúso de Águas Cinzas (RAC) e a Bacia de Evapotranspiração (BET). Quando o assunto é a estocagem de alimentos e forragem existem a Silagem e as Casas e os Bancos de Sementes Crioulas, por exemplo.
Cada uma dessas tecnologias desempenha um papel específico na propriedade, mas é na integração entre elas que se constrói a convivência com o território que consiste em: produção agroecológica; preservação ou recuperação de áreas degradadas do bioma local; geração de renda; e promoção da dignidade.
Conheça algumas tecnologias de Convivência com o Semiárido para além da estocagem de água:

Fogão Ecológico
O Fogão Ecológico ou também chamado de Fogão Ecoeficiente existe em vários formatos, geralmente com base de tijolos e chaminé, que permite que a fumaça não fique dentro das residências. Isso diminui as chances das famílias serem expostas ao alto risco de infecções respiratórias, e elimina a dependência do gás de cozinha, reduzindo os custos no orçamento da casa.
Outro segredo de sua eficiência está na câmara de combustão do equipamento que concentra o calor sob a chapa de ferro sem deixá-lo escapar pelas laterais. Essa base metálica permite o uso seguro de múltiplas panelas ao mesmo tempo.
De baixo custo e fácil construção, o Fogão Ecológico ainda amplia a segurança energética, contribuindo com a diminuição do desmatamento, pois reduz o uso de lenha, conservando a paisagem natural. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o uso dessa tecnologia social pode reduzir em até 60% o consumo de madeira na Caatinga.

Biodigestor
O Biodigestor é uma tecnologia social que gera biogás a partir da fermentação de esterco animal misturado à água. Esse processo ocorre em um equipamento de baixo custo e de fácil manejo composto por uma caixa de carga, um tanque de fermentação e uma caixa de descarga.
Além de eliminar a necessidade da família comprar gás de cozinha, gerando economia, o biodigestor também produz fertilizante para o solo, contribuindo para o plantio e a produção de alimentos.

Sistemas RAC e BET
O Sistema de Reúso de Águas Cinzas (RAC) é uma tecnologia social desenhada para reaproveitar o descarte de efluentes domésticos oriundos de ralos, pias, tanques e máquinas de lavar roupas, que depois de filtrados são destinados para a produção de alimentos, contribuindo com a preservação do solo.
Considerado de baixo custo e fácil manutenção, o RAC é composto por uma caixa de gordura, um filtro biológico com camadas de pedras, areia e serragem, e o tanque de armazenamento. Depois de passar por essas estruturas, a água filtrada é utilizada principalmente para a irrigação de plantas medicinais, forrageiras e frutíferas.
A Bacia de Evapotranspiração (BET), por sua vez, é destinada para o tratamento de águas fecais. Também conhecida como “fossa de bananeiras”, essa tecnologia social é basicamente um tanque na maioria das vezes de alvenaria que impede que a água com dejetos contamine o solo e lençol freático.
O tanque da BET é preenchido com diferentes materiais, geralmente começando com pneus ou grandes pedras no fundo onde o esgoto entra. Mais acima estão as camadas com brita, areia e terra orgânica no topo. Na superfície, são plantadas plantas de espécies de folhas largas e crescimento rápido, como a bananeira. Elas absorvem a água e os nutrientes processados pelas bactérias no fundo do tanque e os liberam na atmosfera através da evapotranspiração.

Silagem
A Silagem é uma tecnologia social importante para a segurança alimentar dos rebanhos no Semiárido. Seu método consiste na conservação de forragem, ou seja, de alimento para animais baseado na fermentação controlada em um ambiente sem oxigênio. Essa estratégia preserva o valor nutritivo do milho, sorgo, capim ou da palma por longos períodos.
Para garantir essa “poupança”, que servirá de alimento aos animais como, gado, bodes e ovelhas, nos períodos mais longos de estiagem, a planta colhida pela agricultora ou agricultor é cortada em pedaços pequenos. Esse material é coberto e fechado hermeticamente, geralmente com lona e terra.
Os modelos mais comuns de silos no Semiárido são o “circular” ou “cincho”, que utiliza um anel de zinco ou madeira para moldar a silagem acima do solo; o “trincheira” onde o material é compactado em um buraco com paredes revestidas cavado no chão; o de “superfície” em que a silagem fica sobre o solo e apenas coberta com lona pesada; e ainda o “silo de saco” ou “silo de bolsa” que guarda a silagem em sacos de polietileno.

Casas e os Bancos de Sementes Crioulas
Nascidas da organização comunitária, as casas e os bancos de sementes crioulas são tecnologias sociais de preservação da biodiversidade e pilares da soberania e segurança alimentar no Semiárido. São espaços que garantem o insumo básico, a semente geneticamente adaptada ao clima, para as agricultoras e os agricultores plantarem no período chuvoso.
Geralmente feitos de alvenaria, as casas e os bancos de sementes mantêm sementes armazenadas em recipientes fechados, especialmente garrafas PET. A estratégia passa também pela preservação de variedades da mesma planta como o feijão, que pode ser de corda, fava ou vermelho. É comum encontrar muitos tipos de milho, além de sementes de, jerimum, melancia, por exemplo, e até de plantas forrageiras.
As casas e os bancos de sementes funcionam em um sistema de empréstimo e devolução sob a gestão coletiva das guardiãs e guardiões da comunidade. De maneira geral, a agricultora ou o agricultor retira uma quantidade de sementes na época do plantio, se a safra for bem-sucedida, devolve-se o dobro de material genético retirado.


