17ª Marcha aponta caminhos para o futuro do Semiárido com lançamento do Programa Um Milhão de Tetos Solares

Ao longo dos anos, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia se tornou um espaço agregador das mais diversas pautas

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Helena Dias e Kléber Nunes/ASACom

Maior mobilização feminista do Semiárido, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia reuniu cerca 6 mil pessoas nas ruas do município de Remígio (PB) em sua 17ª edição. Em defesa da Borborema Agroecológica e contra as falsas soluções para o clima, a manifestação aconteceu em sua cidade de origem, comemorando um marco para a luta das mulheres e do Semiárido: o lançamento do Programa Um Milhão de Tetos Solares (P1MTS).

Logo nas primeiras horas da manhã da última quinta-feira (12/03), a diversidade da Marcha tomou o entorno da Lagoa Parque Senhor dos Passos com a animação das mulheres do Polo da Borborema. Entre a Feira de Saberes e Sabores – com as delícias da produção agroecológica e o artesanato – e o palco montado para os artistas da região, pessoas de vários estados como Alagoas, Maranhão, Bahia e Sergipe, celebravam as riquezas do Semiárido e a força de luta do território.

“A Marcha representa um ato de liberdade, de construção política e de resistência. As empresas de energia renovável não avançaram no nosso território por conta desse movimento das mulheres, elas querem explorar nossa terra, nossa mãe natureza e, principalmente, nós mulheres”, aponta Gizelda Beserra, liderança sindical de Remígio e do Polo da Borborema.

Foto: Túlio Martins/AS-PTA
Foto: Túlio Martins/AS-PTA

Pautas e denúncias

Não demorou muito para que a população e o comércio local se somassem ao ato no embalo da cantora Lia de Itamaracá. Em seguida, o público assistiu a uma peça protagonizada por agricultoras e agricultores da região, que denunciou a destruição provocada no Semiárido pelas fazendas de energia solar e usinas eólicas, pela monocultura e pelo uso de agrotóxicos na produção de alimentos.

Ao fim do teatro, a fala da agricultora de Remígio, Vânia Aguiar, reforçou que a denúncia tem base na vida real. “A nossa área de assentamento é para a gente produzir, preservar e zelar. E não para a gente entregar para um projeto que vem fortalecer somente elas [as empresas de energia]. A gente precisa de uma energia que venha ajudar as mulheres […]. Quando a gente se reúne, a gente faz revolução e eu estou aqui para dizer que o lugar dos parques eólicos não é na Borborema”

Ao longo dos anos, a Marcha se tornou um espaço agregador das mais diversas pautas que impactam a vida das mulheres. Entre bandeiras e cartazes de luta, as reivindicações iam desde a defesa da agricultura familiar agroecológica, a proteção da biodiversidade da Caatinga até o fim da escala de trabalho 6×1. Essas temáticas se somavam à luta contra a misoginia e o feminicídio.

No ponto alto da mobilização, as mulheres pararam em frente à sede da Prefeitura Municipal de Remígio e realizaram uma intervenção com cruzes pretas e falas contra a violência machista, lembrando das companheiras vítimas de feminicídio. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o ano de 2025 bateu o récorde de feminicídios na última década.

Programa Um Milhão de Tetos Solares (P1MTS)

A conquista do Programa Um Milhão de Tetos Solares (P1MTS) é da luta pela convivência com o Semiárido e, sobretudo, das mulheres do território. Há seis anos, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia vem afirmando “Energia renovável sim, mas não assim”. Por isso, o P1MTS é um marco divisor de águas e não poderia ser lançado em outro momento senão na 17ª Marcha.

“Quando as mulheres marcham, elas marcham pelos seus direitos e também para construir o futuro. O Programa tem um objetivo muito evidente, que é levar para as mãos dos povos do Semiárido a energia renovável, uma energia que é nossa. Nós vamos gerar energia sem ter que derrubar nossa mata nativa, porque é na convivência com o Semiárido que a gente trabalha e respeita a natureza”, explica Rejane Silva, da coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

A iniciativa inaugura um novo modelo de transição energética verdadeiramente justa e democrática começando por Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Piauí. O P1MTS tem o apoio da Fundação Banco do Brasil (FBB), Cáritas Francesa e Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD).

“A gente não pode pensar a transição energética somente com a perspectiva dos grandes conglomerados industriais, porque sabemos como funciona. É sempre de uma forma concentradora e excludente para a população brasileira. Temos que pensar de uma forma democrática e é isso que a gente está pensando e trazendo junto com a ASA nesse grande projeto”, ressalta Gilson Lima, diretor executivo da FBB.

Walter Prysthon, agente de projetos para o Brasil da Cáritas Francesa, lembra também do caráter formativo do P1MTS. “O Programa traduz uma aposta comum das organizações, que é a transição ecológica justa. A gente acredita que ele tem uma proposta inovadora e corajosa para abordar a questão energética no Brasil e no mundo em tempos de mudanças climáticas. Principalmente, a perspectiva que se abre para a juventude rural de uma formação técnica e profissional de qualidade enraizada nas necessidades do território”.

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