Helena Dias/ASACom
No último dia 20, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um alerta: o mundo entrou na era da falência hídrica global. O conceito se refere ao colapso de importantes sistemas de circulação, armazenamento e distribuição de água, em um cenário em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Esta informação está presente no relatório “Falência Hídrica Global”, divulgado pela própria ONU.
Entre os dados mais alarmantes, o documento aponta que metade dos grandes lagos do mundo, dos quais 25% da humanidade depende, perderam água desde o início da década de 1990. Além disso, 70% dos principais aquíferos apresentam diminuições. Nos últimos 50 anos, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, área equivalente ao tamanho da União Europeia. As principais causas desse colapso são décadas de “uso excessivo, poluição e pertubações causadas pelas mudanças climáticas”.
Soluções locais
Nas regiões semiáridas de todo o mundo, a falta de acesso à água é uma realidade muito presente. No Brasil, nas últimas três décadas, os debates sobre os impactos do clima e suas mudanças na vida da população se fortaleceram por meio da Agroecologia e da Convivência com o Semiárido.
Neste sentido, a ASA sistematizou e difundiu diversas tecnologias de captação e armazenamento de água, que dialogam diretamente com a perspectiva de gestão responsável do uso da água e convivência com o clima. A seguir, quatro dessas tecnologias sociais que ajudam a frear a crise hídrica na prática:
Reuso de Águas Cinzas (RAC)

O RAC é uma tecnologia social importante para o Semiárido quando o assunto é segurança hídrica e produção de alimentos. Um sistema que reutiliza a água do banho, da cozinha e da lavanderia para a irrigação de canteiros, quintais e até Sistemas Agroflorestais (SAFs). A tecnologia capta as águas cinzas por gravidade e as submete a tratamentos de limpeza e purificação, garantindo assim o reaproveitamento dessas águas.
Em territórios que passam por longas estiagens, poder reutilizar água é essencial. Ainda mais se é possível fazê-lo sem riscos à saúde. Em 2025, a ASA implantou sistemas de reuso de águas para 45 famílias beneficadas pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), visando aumentar em até 70% a disponibilidade hídrica para agricultores no Semiárido. Também no mesmo ano, foram contabilizadas mais de 600 tecnologias sociais de reúso, construídas ou em fase de implantação, nos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais.
Recentemente, a ASA avaliou o panorama do reuso de águas no Semiárido diante do desafio de saneamento rural no território. Para saber mais sobre o assunto, clique aqui.
Leia a história de Candeeiro “Vida sustentável e segurança alimentar: O sistema de reuso de águas cinzas do seu Chiquinho e dona Rosária, no Piauí”, clique aqui.
Bacia de Evapotranspiração (BET)

A tecnologia social BET segue a linha de reuso, só que reaproveita a água dos vasos sanitários e tem outra estrutura. É uma tecnologia escavada que permite que o esgoto seja tratado por bactérias e depois devolvido para o ar pelo solo e por espécies vegetais plantadas na própria bacia, sem risco de contaminação de solo ou de água.
As bactérias, que se desenvolvem naturalmente no interior da BET, são capazes de consumir os dejetos humanos e com isso liberam elementos químicos que podem ser consumidos pelas plantas sem que haja contaminação de seus frutos, por exemplo. Ou seja, uma água que para muita gente seria impensável de ser reaproveitada, esta tecnologia garante que seu uso até para a produção de alimentos.
Barragem subterrânea

É uma tecnologia que envolve muita mobilização e organização social. Sua estrutura é de uma vala escavada até a camada impermeável do solo, revestida e coberta por uma lona plástica. Funciona como um reservatório subterrâneo que armazena água na terra e tem ajudado muitas famílias agricultoras a produzirem alimentos mesmo no período de estiagem do Semiárido brasileiro.
O reservatório também inclui um vertedouro de alvenaria por onde o excesso de água escoa, bem como poços que coletam a água armazenada, que pode então ser usada para irrigação em pequena escala.
Saiba mais sobre a barragem subterrânea em nossa cartilha, clique aqui.
Leia o passo a passo também no site do projeto “Daki Semiárido Vivo”, clique aqui.
Cisternas

Provavelmente, a tecnologia social mais conhecida desta lista. A cisterna é uma estrutura de captação de água de chuva para consumo e produção de alimentos. Cada cisterna tem capacidade para armazenar 16 mil litros de água, volume suficiente para abastecer uma família de até cinco pessoas, no período de estiagem que pode chegar a oito meses. O seu funcionamento prevê a captação de água da chuva que cai no telhado da casa e escoa para a cisterna através das calhas.
Em 2025, organizações da sociedade civil que compõem a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) construíram mais de 30 mil tecnologias sociais de captação e armazenamento de água no território mais vulnerável à emergência climática no Brasil.
Entre reuso e armazenamento de água, as tecnologias sociais aqui listadas dialogam diretamente com a gestão responsável desse recurso natural valioso. É preciso pensar nessa lógica a nível de política pública de Estados e acordo entre países, só assim será possível lidar com a realidade alarmante de falência hídrica.


