ASA e Cidacs unem comunicadores populares e pesquisadores para divulgar informações científicas sobre os impactos das cisternas na saúde

A iniciativa pretende transformar resultados de pesquisas científicas sobre o Programa Um Milhão de Cisternas em materiais acessíveis às comunidades rurais no Semiárido baiano.

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Com o tema “Cisternas, água e saúde”, jovens de cinco comunidades da Bahia, juntamente a comunicadores e integrantes da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), além de pesquisadores e comunicadores do Cidacs participaram de uma imersão durante os dias 22 e 23 de janeiro, em Feira de Santana. 

O Cidacs, Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde, é um órgão ligado à Fiocruz que trabalha com análise de políticas públicas a partir de grandes bases de dados. A parceria com a ASA visa devolver os resultados destas investigações de forma didática e dialógica para as comunidades do Semiárido. Para isso, une jovens e pesquisadores para produzir conteúdos embasados cientificamente e adaptados às linguagens e dinâmicas de comunicação das comunidades.

Durante o encontro, os participantes trocaram experiências sobre suas vivências no Semiárido, falaram sobre as transformações históricas pelas quais este território passou e discutiram narrativas midiáticas sobre a seca. Além disso, a partir de dados científicos, debateram os impactos das cisternas de consumo na saúde das famílias. 

Cada jovem apresentou uma proposta de comunicação que pretendem desenvolver em suas comunidades. Jaciara Oliveira, indígena da etnia Tuxi, que esteve acompanhada de seu bebê de um ano, planeja fazer um vídeo e um boletim na Tuxí Aldeia Mãe, comunidade em que vive no município de Abaré (BA):

“A minha proposta é produzir um vídeo curto para publicar nas redes sobre cisterna, pensando muito no cuidado, de como cuidar da cisterna, manejos. E construir um boletim com informações sobre a segurança alimentar porque aí na nossa comunidade já tem tecnologias como o barreiro trincheira, tem a cisterna de consumo, a cisterna de produção e o quintal produtivo”, comentou durante sua apresentação. 

Breno de Jesus Santiago, outro jovem participante, que vive na Comunidade de Lagoa Grande, município de Retirolândia (BA) e que usa o humor para falar sobre a sua na página Os meninos do Semiárido, avalia que a imersão renovou sua vontade de fazer comunicação popular: 

“Eu acho que eu volto ainda mais com esse desejo de fazer uma comunicação diferente, de realmente fazer uma comunicação popular, uma comunicação que fale a voz do povo, que as pessoas das comunidades rurais, que as pessoas que estão ali esquecidas olhem para algo e se vejam ali”, comentou animado Breno de Jesus Santiago.

Participantes na imersão Cisterna, água e saúde. Feira de Santana, 22 e 23 de 2026.

Essa imersão é parte de um processo formativo de comunicação popular que terá duração de seis meses. Além desta etapa presencial, os participantes terão encontros online regulares para desenvolver produtos de comunicação voltados para a divulgação de informações científicas. 

Durante este processo, os jovens serão acompanhados por comunicadores de organizações integrantes da ASA que já possuem um trabalho com a juventude do campo: a Cooperativa de Assistência à Agricultura Familiar Sustentável do Piemonte (COFASPI), o Centro de Convivência e Desenvolvimento Agroecológico do Sudoeste da Bahia (CEDASB), a Fundação de Apoio à Agricultura Familiar do Semiárido da Bahia (FATRES), o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC). 

A parceria entre ASA e Cidacs

A iniciativa é liderada pelo Cidacs, em parceria com a ASA, e integra o projeto de pesquisa “Quando os dados encontram a vida real: uma análise do Programa Um Milhão de Cisternas sobre a saúde e o bem-estar da população do Semiárido brasileiro”, financiado pelo National Institute for Health and Care Research (NIHR – Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Cuidados) dos Estados Unidos.  

As pesquisas do Cidacs avaliam os impactos das cisternas em múltiplas dimensões: na alimentação, educação, renda, bem-estar emocional e na capacidade das comunidades de permanecerem em seus territórios.

“No Cidacs, a gente olha para a saúde enquanto todos os fatores que influenciam ela. Então, por exemplo, será que eu não ter saneamento e a outra pessoa ter, vai afetar a minha saúde? Ou seja, não é só sobre a doença, mas sobre como o contexto faz a gente adoecer ou não”, explica Walisson de Araújo, jornalista e pesquisador que integra a equipe executora do projeto. 

Walisson Angélico de Araújo, jornalista do Cidacs. Feira de Santana, 22 e 23 de 2026.

A inovação desta parceria é juntar este olhar para a saúde ao engajamento da juventude. Para César Santos, assessor de coordenação do P1MC, essa parceria com o Cidacs é uma oportunidade de trazer a potência da juventude do Semiárido para renovar a defesa deste território:  

“É uma iniciativa que chega em um momento decisivo para a rede ASA, já que a gente anda refletindo e construindo estratégias para ampliar a participação das juventudes do campo em nossas ações”, comenta César Santos. 

César Santos, assessor do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) durante a imersão Cisterna, água e saúde. Feira de Santana, 22 e 23 de 2026.

Da pesquisa à comunicação popular

A proposta de trabalho com jovens de comunidades beneficiadas pelo Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) nasceu de forma complementar às pesquisas que o Cidacs vem realizando com uma coorte de mais de 100 milhões de brasileiros. Uma coorte é um grupo de indivíduos com características em comum acompanhados ao longo do tempo. A partir desta grande base de dados, as e os pesquisadores do Cidacs buscam aferir o impacto de programas sociais, como o Programa Cisternas, na vida dos brasileiros. 

Da esquerda para direita: Kelly Almeida, Lucilene do Rosário e Firmino de Sousa. Feira de Santana, 22 e 23 de 2026.

Firmino de Souza, que hoje é professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um dos pesquisadores do Cidacs envolvido na iniciativa, investiga atualmente sobre o impacto das cisternas na redução da mortalidade de crianças menores de 5 anos. Além disso, ele é o proponente deste projeto de engajamento de jovens. Natural de Nova Fátima, no semiárido baiano, viveu junto a sua família as dificuldades da seca e viu a chegada das cisternas transformarem a sua realidade. Ele defende que é importante ir além dos dados e alinhar a pesquisa ao diálogo com as pessoas que participam destes estudos: 

“Eu consegui pelo NIHR, que é um instituto nacional de pesquisa lá dos Estados Unidos, esse recurso para, em paralelo a essa parte de dados de coorte, fazer esse projeto de engajamento. Ver qual é a percepção do pessoal que foi beneficiado pelas cisternas”, explica Firmino de Souza. 

A ideia somou-se aos esforços que a ASA já realiza para fomentar uma rede de comunicadores populares em todo o Semiárido. 

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