I Seminário Nacional de Inovação Inclusiva acontece no Semiárido Show 

Tecnologias, experiências e políticas públicas de inovação camponesa foram tema de debates, oficinas, seminários e feiras. 

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Lívia Alcântara | Asacom

Inovação, ciência e tecnologia já foram palavras avessas à agricultura familiar, mas no Semiárido Show, elas estão de mãos dadas. O evento alia o conhecimento de pesquisadores e a experiência de gestores públicos às experimentações de agricultores e agricultoras para apresentar, ao público de cerca de 15 mil pessoas, inovações da agricultura camponesa. 

“Os pesquisadores e pesquisadoras são as pessoas que desenvolvem o conhecimento a partir da academia, mas essa fonte de conhecimento só tem sentido para nós, se ela estiver articulada de forma respeitosa com os conhecimentos desenvolvidos pelos agricultores e agricultoras do Semiárido brasileiro. Parabéns à Embrapa por ter a capacidade e a sensibilidade de articular saber popular e saber da academia”, felicitou Cícero Félix, coordenador executivo da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), durante a abertura do Semiárido Show. 

O Semiárido Show, que é a maior feira de inovação da agricultura familiar do Semiárido, acontece a cada dois anos em Petrolina, no sertão de Pernambuco e chega a sua 11ª edição com o tema “Ciência e inovação para a inclusão socioprodutiva”.

Tecnologias de Convivência com o Semiárido

Um dos espaços que mais chamam a atenção do público no evento são as mais de 100 vitrines tecnológicas, como são chamadas as unidades demonstrativas de inovações no manejo da agrobiodiversidade. Ali se destacam instrumentos e práticas que permitem às famílias agricultoras adaptarem-se ao clima semiárido e tornarem-se resilientes aos períodos de estiagem.

Numa área experimental de 20 hectares da Embrapa, onde acontece o evento, foi construído um barreiro-trincheira, tecnologia de armazenamento de água que, nesta edição da feira, foi apresentada com cobertura acoplada. Segundo o colaborador do Irpaa, Vanderlei Leite, responsável por apresentar a tecnologia ao público, a inovação reduz em até 50% a evaporação da água. 

Tradicionalmente, o barreiro-trincheira era construído em uma largura grande e com pouca profundidade, o que implicava em uma perda considerável da reserva de água no processo de evaporação. Em colaboração com agricultores, a tecnologia hoje é construída em dimensões estreitas, profundas e com cobertura de sombrite, o que protege o reservatório do sol e do ar e garante água para a produção de alimentos e dessedentação animal por mais tempo.  

Barreiro-trincheira na vitrine tecnológica do 11º Semiárido Show. Rodolfo Rodrigo/ASA.

De experiências à políticas públicas 

Para Gaston Kremer, diretor executivo da WTT (World-Transforming Technologies), que organizou dentro da programação do Semiárido Show o “I Seminário Nacional de Inovação Inclusiva”, o evento é um espaço importante para se discutir a participação social na ciência, tecnologia e inovação. Embora tenhamos bons exemplos de políticas públicas construídas com participação popular, como o Programa Cisternas e o Programa Quintais Produtivos das Margaridas, ainda precisamos avançar, avalia: 

“A gente espera nesse Seminário de Inovação Inclusiva trocar ferramentas e modos de fazer para garantir recursos e condições adequados para que essas experiências passem de anedotas e virem tendências”, defendeu Gaston Kremer em diálogo com representantes da ASA, Embrapa, ONU Mulheres e FAO. 

Vitrine tecnológica da Embrapa Solos no 11º Semiárido Show. Rodolfo Rodrigo/ASA.

Embora tenhamos disponíveis uma série de práticas e tecnologias com eficácia comprovada em promover o bem estar das famílias camponesas, a maioria delas ainda não são acessíveis à população numa escala de políticas públicas. Esse é o caso de outra inovação apresentada no Semiárido Show: o sistema de esgotamento total. 

A tecnologia permite o tratamento das águas cinzas e fecais na área rural e pode ser combinada com o reúso para irrigação de alimentação forrageira. Embora seja uma opção já testada para o tratamento de esgoto na nas comunidades  rurais e fundamental no enfrentamento às mudanças climáticas, o saneamento rural ainda não é encarado pelo poder público como um direito. 

“Essa tecnologia [sistema de esgotamento total] e outras já estão no Programa Nacional de Saneamento Rural, que está na gaveta da Funasa, que luta para sobreviver”, crítica André Rocha, que tem participado ativamente na construção de um programa de saneamento rural da ASA. 

Sistema de Esgotamento Total na vitrine tecnológica no 11º Semiárido Show. Vagner Golçalves/IRPAA.

Mulheres e inovação 

Inovação e ciência tampouco incluíram as mulheres ao longo de sua história. Essa foi a primeira edição do Semiárido Show que sediou uma plenária de mulheres

Ao longo da quarta-feria (27), cerca de 50 mulheres discutiram o papel das políticas públicas no fortalecimento da atuação feminina e compartilharam experiências exitosas de Convivência com o Semiárido. 

Para Larissa Cervi, gerente de Projetos da ONU Mulheres, a “inovação passa necessariamente por incluir mulheres, por buscar soluções que enfrentam os obstáculos que elas têm… Que elas possam ter voz tanto no processo de formulação das inovações, como também se beneficiar dessas inovações”. 

Mulheres sentadas em roda debatendo, durante o Semiárido Show.
Plenária de mulheres durante o 11º Semiárido Show. Foto: Vagner Gonçalves/IRPAA.

Inovação como transformação social

Para Antônio Barbosa, coordenador do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da ASA, a inovação pode ser definida como “trabalho para atender uma necessidade”. Ele defende que quando falamos de inovação devemos primeiro perguntar sobre o seu propósito: “a pergunta que a gente tem para fazer é: atende a quem?”, questionou durante o I Seminário Nacional de Inovação Inclusiva. 

No mesmo sentido, Ana Euler, diretora-executiva de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, durante mesmo seminário, pontuou que inovação vai muito além de uma tecnologia em si, que é, antes de tudo, transformação da realidade:

“Que a gente possa colher muitos frutos daqui para frente, transformando as realidades muito mais do que simplesmente produzindo tecnologias. A gente não quer ter 2, 3, 10 mil tecnologias, a gente quer poder dizer que estamos transformando essas realidades e realmente trazendo soluções integradas, que realmente levam o desenvolvimento total”, afirmou Ana Euler.  

Umbuzeiro do Cohecimento na Vitrine tecnológica no 11º Semiárido Show. Vagner Golçalves/IRPAA.

Semiárido Show

O Semiárido Show é realizado pela Embrapa e conta com a parceria do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa). Os patrocinadores do evento são: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar; Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf); Banco do Nordeste; Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene); Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Banco do Brasil; e Governo do Estado da Bahia.

Vitrine tecnológica no 11º Semiárido Show. Rodolfo Rodrigo/ASA.

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