Missões e manejo agroecológico: valorizando as sementes crioulas e a cultura popular
A experiência dos Guardiões e Missionários das Sementes da Paixão, da ASA Paraíba, foi o primeiro tema apresentado por Fábia Raquel Nunes de Oliveira, em uma das oficinas do II Encontro Nacional de Sementes. Segundo Raquel, a invasão dos transgênicos, incentivada por políticas de governo que estimulam o monocultivo, promovem a insegurança alimentar e a desvalorização do conhecimento e da biodiversidade, ameaçando as sementes crioulas e agricultura familiar. O Pronaf também é visto como uma das ameaças, pois a assistência técnica é voltada para o agronegócio e não dá opções para organização da propriedade e da biodiversidade.
A maneira encontrada para combater essas ameaças pelo coletivo Guardiões da Biodiversidade, do qual Raquel faz parte, foi traçar estratégias como: resgate e mapeamento dos guardiões de toda a biodiversidade; georeferenciação das famílias guardiãs e bancos de sementes do coletivo; identificação genética e da caracterização das sementes, através de reuniões discutindo sobre a preservação da biodiversidade. Entre 2009 e 2010 foram identificados cerca de 130 guardiões e guardiãs da biodiversidade, onde 73% são mulheres.
Foram realizadas as Missões das Sementes da Paixão do coletivo Cariri e Seridó, com o lançamento de interessantes materiais didáticos utilizados durante momentos de formação, como estandartes dos guardiões, caixa ou casa de sementes, caderno de experiências de guardiões, orientações em vídeos e textos sobre a biodiversidade e álbum de identificação das sementes nativas. Todo esse processo foi festejado com a V Festa Estadual das Sementes da Paixão, onde estiveram presentes cerca de 1300 agricultores, e a V Festa Regional das Sementes da Paixão, onde 300 agricultores e agricultoras receberam o certificado de guardiões de sementes.
A segunda experiência da oficina foi apresentada por Vilmar Luiz Lermen, morador da Área de Preservação Ambiental (APA) do Araripe, em Pernambuco, teve como tema “Estratégia familiar de uso, manejo e conservação da agrobiodiversidade e convivência com o semiárido”. O manejo agroecológico da terra é uma estratégia que tem auxiliado o cultivo das sementes crioulas, incentivado pela construção bancos de sementes na região, onde já é possível perceber o cultivo de mais de 100 espécies de sementes anuais, frutíferas, forrageiras, medicinais e repelentes.
Ele traz ainda a denúncia de pesquisas que são feitas por diversos órgãos com a participação de agricultores e que não são devolvidas as comunidade e são creditadas apenas aos pesquisadores, enquanto todo o conhecimento saiu de uma construção coletiva que não se torna conhecida, deixando que práticas como dos bancos de sementes caiam no esquecimento e descrédito do restante da população.
Experiências como essas vêm influenciando algumas políticas públicas nos estados, como o debate da ASA com o governo paraibano e com a Conab, para compra e distribuição das sementes da paixão para os agricultores, ao invés de sementes híbridas que vem sendo distribuídas. Outra influência é a relação com órgão de pesquisa comprovando o valor do patrimônio genético através de ensaios e campos de sementes. Tudo isso com a participação dos agricultores e organizações que os apóiam. Euzébio Cavalcante, da Paraíba, ressalta a importância da semente humana, com a partilha do conhecimento e das sementes físicas para perpetuar a tradição de guardar sementes.


