Agroecologia
08.06.2016 SE
Na comunidade Garrote do Emiliano a família dos Vitos mostra a produção agroecológica e cultural da localidade
A visita á experiência aconteceu durante o IV Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores que segue até esta quinta-feira

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Por Iva Melo - Pesquisadora bolsista ASA/INSA

Clã dos Vitos mostra o talento musical que é repassado há gerações | Foto: Iva Melo

O Garrote do Emiliano é uma comunidade localizada no município sergipano de Poço Redondo, com cerca de 48 famílias, a maioria ligada por laços de consanguinidade, donde vem a matriarca de um importante clã cultural de Sergipe: “Os Vitos”. A comunidade é base do MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores e sua relação com a Articulação Semiárido Brasileiro, além da proximidade da ASA com o MPA, está pela construção de tecnologias de Convivência com o Semiárido nessa comunidade nos anos de 2010 e 2011, bem como pela participação de sua liderança associativa no Comissão Municipal da ASA-SE.

A visita a Comunidade Garrote do Emiliano envolveu um grupo de 15 pessoas, entre técnicos, lideranças sindicais e agricultores dos estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Os agricultores participantes com muita experiência em agroecologia e uma enorme vontade de trocar conhecimento.

Tudo começou com um grande show cultural, com um dos mais tradicionais grupos de pífanos do Estado de Sergipe, “Os Vitos”, uma família que tem suas origens nessa comunidade e que a partir do pífano faz um resgate do samba de coco, da dança de São Gonçalo, como identidade cultural. A apresentação foi bastante animada, envolvendo os visitantes nas conversas e na dança e intercalada com toadas, desafios e improvisação poética.

Os visitantes apresentaram-se e contaram um pouco sobre suas próprias experiências e as expectativas ao visitar o estado de Sergipe e os experimentadores. Em seguida tivemos a apresentação dos moradores da comunidade, já trazendo um pouco sobre as inovações e os responsáveis de tocá-las, enquanto atividade de uma coletividade.

O local escolhido para a recepção inicial foi uma casa de taipa, que representa uma das primeiras habitações da comunidade, Seu Rosalvo trouxe um pouco da história das famílias que fundaram a comunidade, a partir dessa residência, o porquê do nome e a importância daquela habitação para os povos que ali vivem hoje. Contou que hoje a comunidade é formada por cerca de 48 famílias a maioria com laços de consanguinidade e todos com um sentimento de pertença a uma irmandade, mesmo que não consanguínea. Trouxe-nos também um pouco dos desafios e como cada um deles foi sendo enfrentado na coletividade a partir da sua liderança e da articulação do Movimento dos Pequenos Agricultores.

Da história da comunidade os moradores nos trouxeram o sofrimento de algumas décadas atrás, quando a falta de água muitas vezes resultava na falta de comida na mesa, por conta de não haver água para o cozimento, que toda água de consumo era trazida do vilarejo vizinho, a uma distância de pelo menos 10 km. Essas dificuldades viraram motivos para a organização e transformaram-se em lutas, que geraram como resultado a construção de 33 cisternas de consumo em 2010, cisternas de produção em 2011 e instalação de água encanada, que mesmo não tendo uma frequência regular, facilita o dia a dia da comunidade.

As conquistas deram mote para outras formas de organização, fortaleceram a associação comunitária e deram origem a muitas ações coletivas, projetos e acesso a políticas públicas, mesmo que a maioria desses estejam na dimensão de acesso a recursos públicos federais e estaduais e ainda não se tenha uma assistência maior do próprio município – Poço Redondo-Se.

Após essa conversa e mais uma rodada cultural onde dançamos a “Maceda”, um estilo de Samba de Coco, composto pelos “Vitos”, fomos in loco, observa as inovações desenvolvidas pela família de Seu Rosalvo e/ou pela comunidade, em relação ao manejo da agrobiodiversidade e geração de renda. 

Visita à área de produção

O grupo percorreu a área de produção da comunidade | Foto: Iva Melo

Iniciamos as visitas pelo Viveiro de produção de Mudas, foi explicado que todo processo de produção de mudas nessa área tem por objetivo constituir um quantitativo de mudas nativas suficientes para implantação de um projeto da Associação que visa recuperar uma área de pelo menos 20 tarefas, sendo 10 famílias envolvidas cada uma com 2 tarefas. Todo o trabalho de conscientização dos agricultores está sendo feito no sentido de fazê-los perceber como o processo de criação e de cultivo feito até hoje degradou a vegetação e o solo e nos prejuízos disso para a sustentabilidade da propriedade, então, num processo longo é preciso começar a recuperar essa pequena área, experimentando um processo de manejo que envolve a introdução de mudas nativas e exóticas adaptadas, consorciadas com o plantio de milho e palma, de forma a fazer os agricultores desenvolverem técnicas de produção de forragem que possam conviver com a biodiversidade. As mudas são produzidas por um grupo de jovens e tem o apoio dos parceiros e do MPA.

Durante a apresentação dessa experiência o agricultor Eudes, do estado de Pernambuco, apresentou um bomba manual adaptada por ele para alimentar sistemas de irrigação por aspersão. O sistema feito com canos e material reutilizado, como o tubo de caneta, é mais econômico que o convencional e irriga um diâmetro maior que um aspersor comum vendido no mercado, sendo que é móvel e a bomba comporta até três bicos de aspersão, sem prejuízos na pressão, o valor de produção fica entre R$. 50,00 e R$. 200,00, dependendo do modelo.

O segundo modelo de manejo da agrobiodiversidade visitado foi a introdução da macambira como mata ciliar de um pequeno riacho da propriedade. A macambira sustenta a areia e consequentemente evita o assoreamento do riacho, enquanto isso a vegetação arbórea ganha tempo para se recompor.

Constatamos na propriedade uma área com voçorocas bem profundas e o trabalho de barramento desse dano ambiental, feito a partir da introdução de barragem de base zero, uma tecnologia trabalhada pela comunidade em parceria com o INSA, onde um conjunto de pedras é cuidadosamente organizado no leito da voçoroca evitando seu aprofundamento e cuidando para barrar material que possa sedimentá-la. Essa foi nossa 3ª experiência na mesma comunidade.

A quarta experiência estava já no quintal da comunidade, uma pequena área de hortaliças, onde, a partir dos canteiros econômicos o agricultor estava produzindo, em meio a uma época do ano particularmente seca, as hortaliças de consumo (beterraba, cenoura, pimenta, pimentão, couve, alface, coentro, cebolinha, etc). O manejo, além do canteiro econômico, envolvia o uso de sombrite.

A casa de sementes foi nossa quinta experiência de manejo da agrobiodiversidade, lá foi nos explicado a quase perda total das sementes de feijão por conta de ter sido abandonado pela comunidade a prática do cultivo desse grão e a recente insistência na recuperação dessas sementes e no plantio dessa cultura, numa perspectiva alimentar. O banco de sementes estava com 7 variedades de feijão 6 de arranca e 1 de corda, em pequenas quantidades, mas com uma expectativa de recuperação dessas variedades.

Além dessas 5 experiências ainda presenciamos o trabalho da comunidade com apicultura, como manejo da agrobiodiversidade e o biodigestor, que transforma o esterco bovino em gás de cozinha e insumos para as culturas de hortaliças, milho, feijão e palma.

Há ainda a experiência das mulheres no trabalho de corte e costura, que se não está enquadrado no manejo da agrobiodiversidade foi apresentado como uma perspectiva de geração de renda e de construção da autonomia feminina. Foi relatado todo o processo de formação do grupo, de elaboração e execução do projeto e de ocupação de mercados com a participação do grupo na Feira de Agricultura Familiar do município de Poço Redondo, realizada a cada 15 dias.

Durante a visita os/as agricultores/as refletiram sobre diferentes formas de produzir e de conviver com o Semiárido | Foto: Iva Melo

Durante todo o percurso das visitas os agricultores trocaram informações, conhecimentos, indicaram alternativas de enfrentamento de um ou outro desafio e foram incorporando novos saberes a suas práticas.

No final avaliamos como importante essa visita, trouxemos elementos de como uma comunidade organizada conquista com mais facilidade o sonho camponês de segurança alimentar.

Seu Rosalvo ressaltou que é possível mudar pois nessa comunidade o uso de veneno, a degradação da vegetação eram muitos intensos e hoje o sonho de recuperar a agrobiodiversidade já é de todos. Apesar disso ainda lamentou o uso do trator, mas com um objetivo a curto prazo de livrar-se dessa dependência.

Os visitantes ressaltaram a importância da cultura viva que presenciaram na comunidade, o trabalho de recuperação da mata ciliar, deram sugestão de como melhorar o desempenho do biodigestor, para conquistar a DAP jurídica da associação e torna-la mais proativa em relação ao acesso a políticas e programas públicos, ressaltou-se a importância de motivar todos os agricultores a fazerem o CAR, parabenizaram a inclusão produtiva e de gestão das mulheres e jovens nas atividades da comunidade.