Acesso à Água
10.05.2016 MG
Ousadia que leva esperança de convivência com o Semiárido ao assentamento Bela Vista, em Minas Gerais

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Por Diêgo Alves - Comunicador popular da ASA

Dona Maria Rosa de Jesus em sua casa, não mais na Vila - Esperança de armazenar água | Foto:Cáritas Diocesana de Araçuaí

A missão da Cáritas diz que é preciso “testemunhar e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, defendendo e promovendo a vida e participando da construção solidária de uma sociedade justa, igualitária e plural, junto com as pessoas em situação de exclusão social.” No mesmo raciocínio duas de suas diretrizes corroboram essa missão: a defesa e promoção de direitos e a construção de um projeto de desenvolvimento solidário sustentável.



É a partir desse desafio que a Cáritas Diocesana de Araçuaí, entidade ligada à Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) chega ao Assentamento Bela Vista, na divisa dos municípios Itinga e Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e num gesto de ousadia e coragem vivencia o discurso nacional, na prática.
 

A coordenadora do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), Cléa Amorim, afirma que a razão de existir da Cáritas e da ASA é esse olhar cuidadoso para as famílias que realmente necessitam dos direitos mais básicos e que infelizmente até então se encontram quase que totalmente desassistidas.

A equipe da Cáritas, ao conhecer a realidade das mais de 48 famílias assentadas ali, fez valer a missão da Cáritas e um dos objetivos da ASA de garantir o direito universal à água como uma das formas de convivência com o Semiárido.
 
“Essa caixa aqui no meu barraco é uma benção que não tem como pagar. A água vinha do caminhão pipa e a gente guardava em latas porque não tinham como armazenar de outra forma. Sem falar na demora em o pipa chegar aqui. Só Deus pra agradecer”, conta emocionada dona Maria.
“Aqui a terra é boa para plantação, mas precisa mesmo de água.  E essa  caixa está sendo uma alegria, uma esperança pra nós aqui. Se tivesse mais água, teria muita fartura”, garante  Seu Valdívio  Pereira da Silva, assentado desde 2007.

A chegada do P1MC no Assentamento Bela Vista, além de mobilizar as famílias para a convivência com a região, resgatou nelas a importância dos trabalhos de mutirão e do fortalecimento de vínculos. “Como as famílias vieram de várias regiões, elas não tinham laços estabelecidos, por isso era cada uma no seu espaço”, conta Evirênio Amaral, animador social do P1MC.  A mobilização, os cadastros, os cursos de GRH (Gerenciamento dos Recursos Hídricos), os mutirões e a convivência com os pedreiros, são formas de estimular a importância da coletividade, além de toda a experiência da Cáritas em desenvolver projetos comunitários.
 

Para Cléa Amorim, chegar ao Assentamento Bela Vista foi um grande desafio. “Ver tantas famílias com seus direitos negados (moradia, energia e principalmente água) gera uma revolta. A tarefa não foi fácil por ser assentamento, quero com isso dizer, juntou-se famílias de vários lugares, o pensamento comunitário ainda desordeiro. Existem as rixas entre os moradores, como também o jogo de empurra de uma prefeitura com a outra. O assentamento situa-se na extrema dos municípios Itinga e Itaobim. Mas as cisternas trouxeram a aproximação e o amadurecimento para o enfrentamento dos desafios comuns. Não acho que a missão esteja cumprida, mas iniciada”, finaliza.
 
Há três anos as famílias conseguiram a posse da terra, mas das 120 famílias assentadas, apenas 48 resistiram.  Com muita dificuldade vem construindo suas casas de pau-a-pique e algumas ainda tendo lonas como paredes. O acesso à energia elétrica é apenas na vila onde ficaram aglomeradas até a divisão das posses.  

A presença da ASA e da Cáritas ali torna-se um sinal de esperança para as famílias permanecerem no campo e de fato conviverem, em condições dignas, com a sua região.