Cultura
09.03.2016
O direito de contar a própria história
Vídeo realizado pela ASA apresenta experiências protagonizadas por homens e mulheres do campo.

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Por Daniel Lamir - Asacom

Além de não existir efetiva política pública para a democratização da comunicação, o país ainda registra abusos e perseguições a algumas iniciativas populares | Foto: Ivan Cruz

Privilégio ou resistência são duas condições para se contar histórias na realidade prática do nosso país. De um lado, sem a necessária regulação, grupos empresariais de comunicação restringem as vozes que falam nos veículos e se utilizam de concessões públicas como estratégia de lucro e manipulação da opinião pública. Por outro, experiências populares permanecem acendendo luzes para um processo de democratização da comunicação.

Na luta para equilibrar a balança, ainda desigual, de discursos, homens e mulheres desenvolvem variadas formas de apropriação dos meios de comunicação populares. Para que haja pluralidade de vozes, base para experimentação de vivências democráticas e cidadãs, é preciso que existam condições de produção de conteúdos por parte da sociedade. Assim, ganham força e se inserem na agenda pública temas relevantes como a convivência com o Semiárido.

A linguagem radiofônica atravessa praticamente todas as experiências apresentadas | Reprodução do filme

O vídeodocumentário “O Semiárido contado por sua Gente” é uma dessas estratégias de comunicação de resistência. O material apresenta cinco experiências que levantam a bandeira de uma comunicação popular, democrática, diversa e plural. O argumento da peça audiovisual destaca que a comunicação é um direito que favorece a conquista de muitos outros direitos. 

“Se a gente luta pelo direito à terra, água, crédito,  pelo direito das mulheres, dos jovens, das comunidades tradicionais, a gente também inclui a comunicação como um direito fundamental”, afirma Valquíria Lima, coordenadora executiva da ASA pelo Estado de Minas Gerais.  

Nos primeiros minutos do enredo, há uma partida da perspectiva de mudança do imaginário social do Semiárido. Nele, é destacado que as antigas narrativas de uma história única, de fome e pobreza, vão sendo modificadas, ganhando novos capítulos. Por meio de novas estratégias de comunicação, o Semiárido amplifica suas falas e apresenta outros olhares – relatando conquistas e desafios – presentes na realidade da convivência com a região.  

 “A ASA se propõe a transformar a realidade do Semiárido. A mostrar que o Semiárido não é esse espaço inóspito, de morte, de animal morto, de não vida. Para isso, a comunicação é fundamental. Ocupar os espaços dos meios de comunicação para começar a dizer ao povo brasileiro, o que é o Semiárido, o que é o seu povo. Esse debate, nós não ganhamos sem a comunicação”, destaca Naidison Baptista, coordenador executivo da ASA pelo Estado da Bahia.

A primeira linguagem apresentada é de sistematização de experiências | Reprodução do filme

O olhar crítico para o processo de mudança no imaginário social do Semiárido exige, ao mesmo tempo, uma avaliação sobre o poder do discurso. No passado, por exemplo, a narrativa única associada a um Semiárido “improdutivo” serviu para a concentração de poder político e econômico da conhecida Indústria da Seca. A começar pelo título, o vídeo provoca reflexões sobre o poder da representatividade pessoal e coletiva dos povos do Semiárido, a partir da variadas possibilidades de processos comunicacionais.

“Os Dias Comunitários [evento] surgem desta proposta de provocar outro olhar sobre a comunicação. Para que aquela pessoa que está na comunidade - onde parece que ela não existe para essa realidade midiática – possa, a partir de ferramentas populares como cordel, fotografia, boletim, e jornal - assumir o seu papel de comunicador, e não apenas de meramente consumidor”, explica Daniela Bento, comunicadora da ASA Sergipe e participante da experiência dos Dias Comunitários de Comunicação, atividade realizada pela rede de comunicadoras e comunicadores populares do estado, desenvolvendo oficinas práticas e debates políticos sobre a comunicação.     

Além dos Dias Comunitários, são exibidas outras cinco vivências representativas do Semiárido. De Minas Gerais, podemos conhecer os processos itinerantes da Escola de Formação de Comunicadoras e Comunicadores Populares; do Estado do Ceará, são exibidas as experiências da Rádio Camponesa, localizada no Assentamento Palmares, em Cratéus, e do ativismo social do Movimento Ibiapano de Mulheres, em Viçosa do Ceará; a Rádio Poste localizada no quintal da casa do agricultor José Varela,  em Serra do Mel, representa um experiência do Estado do Rio Grande do Norte; e no sítio Pedra Branca, no mucípio pernambucano de Cumaru, há um diálogo com a agricultora Joelma Pereira sobre a sistematização de experiências.

O agricultor Manoel Belarmino dos Santos utiliza a linguagem do cordel como luta social | Reprodução do filme

“O que chama a atenção é que o vídeo não conta com nenhuma 'grande estrela' como um repórter ou uma apresentadora. A história é contada pelas próprias pessoas do campo. Elas são as verdadeiras estrelas do vídeo”, pontua José Bezerra, comunicador popular da ASA Potiguar.

O filme instiga a percepção do papel multidimensional da comunicação. O conteúdo audiovisual reitera a convergência entre as bases da comunicação como um direito e os processos políticos e metodológicos presentes na perspectiva da convivência com o Semiárido. 

“A ASA sempre destacou a comunicação como parte fundamental do nosso método de atuação e de construção de identidade do Semiárido. Qual é essa identidade? Qual é esse lugar que estamos falando? Então quando a gente fala desse lugar, quando a gente consegue expressar esse Semiárido de vida e possibilidade, ele fortalece a nossa ação”, destaca Cristina Nascimento, coordenadora da ASA pelo Estado do Ceará.  

O MIM utiliza a comunicação para defender o direito das mulheres | Reprodução do filme

As filmagens aconteceram em meados de 2015. Elas contaram com a participação efetiva da rede de comunicadores e comunicadoras populares da ASA no diálogo e na apresentação da proposta política do vídeo nas comunidades. Em Crateús, por exemplo, o processo continua. A partir da experiência audiovisual, os assentados e assentadas de Palmares pretendem realizar novas produções para permanecer levantando o debate da comunicação.

“Ficamos muito gratos (as) pela oportunidade que a ASA nos deu de mostrar a nossa experiência com a rádio comunitária. Estamos muito felizes em saber que, como nós, tem muita gente se organizando e ocupando espaços que são nossos por direito, e nos são negados por falta de respeito a vida”, destaca trecho de nota de agradecimento do Assentamento Palmares.

Sede da Rádio Camponesa FM | Reprodução do filme

O vídeo está disponível através da página da ASA na rede Youtube. O material pretende valorizar e fomentar ainda mais o debate sobre o direito à comunicação no Semiárido. Além disso, já está sendo utilizado de diversas formas na Rede ASA, como, por exemplo, cinedebates e em compartilhamentos em espaços virtuais de comunicação.  

“O filme mostra a nossa história de avanços num mundo em que o atual modelo da comunicação da grande mída de massas já não nos contempla”, avalia Neto Santos, comunicador popular do Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido.

Confira o vídeo: