Educação Contextualizada
30.11.2017 CE
Programa Cisterna nas Escolas realiza intercâmbio sobre Educação Contextualizada

Voltar


Por Ricardo Wagner

Felipe (camisa lilás) apresenta as tecnologias implantadas na EFA | Foto: Ricardo Wagner/Obas

Compreender os semblantes da Educação é um desafio e tanto. E foi com essa perspectiva que professoras e professores de diversas microrregiões do Estado do Ceará, participantes do Programa Cisterna nas Escolas, foram convidadas para o Intercâmbio sobre Educação Contextualizada ocorrido nos dias 22 e 23 de novembro, em Independência e Quiterianópolis, municípios da Região dos Inhamuns, no Ceará.

A acolhida foi no município de Crateús e, já no dia seguinte, o grupo visitou as exitosas práticas em Educação Contextualizada da EFA – Escola Família Agrícola Dom Fragoso. A escola, situada em Independência, conta hoje com 62 educandos/as de vários municípios que, no sistema de alternância aprendem e exercem atividades ligadas à agroecologia e diversas tecnologias alternativas de convivência com o semiárido, além das aulas regulares.

Felipe é aluno do terceiro ano e nos recepcionou e presenteou nossos olhares e ouvidos com seu rico conhecimento do bem viver no Semiárido, apresentando as ações de suinocultura, avicultura, caprinocultura, apicultura, além das tecnologias dos viveiros de mudas, mandala, biodigestor, reuso de água, casa de sementes, casa do pão, dentre outras. Ele ressaltou que todas as atividades equilibram as temáticas de gênero, que transcendem seus cotidianos, desde a limpeza e organização da escola, como também nas atividades curriculares. “A sociedade já é muito machista e a gente aprende aqui desde o primeiro ano que temos que cuidar de tudo. E esse conhecimento a gente leva pra casa, pra que os mais velhos percebam que a gente avança. Por exemplo, o mito das mulheres terem medo de abelha, aqui isso não existe. A gente mostra pras pessoas que tudo se pode fazer, basta querer. Os meninos fazem as tarefas domésticas e quando voltam pras suas casas, continuam fazendo”, completou.

O grupo de visitantes estava ávido de conhecimento e as perguntas afloraram. E Felipe, com paciência, trouxe-nos diversos elementos de como a educação contextualizada traz resultados visíveis. “Temos que ser espelho para os outros. A gente faz uma pesquisa na comunidade sobre vários temas, por exemplo, as queimadas, que vem prejudicando a apicultura. Daí a gente devolve os resultados e acaba sensibilizando as redondezas da importância de se preservar o meio ambiente. Além disso, cada educando/a se responsabiliza em aplicar seus conhecimentos nas suas casas”.

A palavra de ordem foi experimentar - Depois de percorrer as áreas das sistematizações, uma roda de conversa foi costurando nossos entendimentos sobre a Educação Contextualizada e como ela pode fazer parte do nosso cotidiano nas escolas “formais” com o embasamento histórico da EFA Dom Fragoso, que completa 15 anos de obstinação, resistindo e contribuindo com a formação pelo bem viver.

Água é emoção
Mata sede
Umedece o torrão
Percorre caminhos
Encharca os olhos
Transborda o coração

É óbvio que os olhos marejaram! Quem consegue segurar a emoção em saber que hoje, as sementes plantadas pela EFA Dom Fragoso hoje dão frutos pelos cantos do semiárido? Exemplos de educandas/os que passaram pela EFA como da Fabiana – hoje na ONG Esplar - e do Josimar – na ONG Obas - pontuaram o quão importante esse modelo de educação é para qualificar o nosso debate nas comunidades do Semiárido, seja através da implementação dos projetos da ASA, seja pelos diversos debates que estão de mãos dadas com o bem viver, como o combate ao machismo, racismo, LGBTfobia, intolerância religiosa, dentre outros.

A plenitude do intercâmbio concretizou-se no dia seguinte, durante a visita à Escola Antonio Batista de Lima, na comunidade Pombo, em Quiterianópolis. As crianças transbordaram seus conhecimentos sobre as questões hídricas, num passeio entre várias tecnologias implantadas na escola. Teve maquete da cisterna nas escolas e do biodigestor, diagnóstico hídrico da comunidade, Rap do 4º ano sobre a água... Imagina a nossa cara de alegria e das professoras de orgulho!

O coordenador da escola, Marcondes, fez um relato de como a Educação Contextualizada tem transformado e despertado nas crianças e em suas famílias o olhar que antes era acortinado por imagens depreciativas do Semiárido, onde a seca, a miséria, a fome e a ignorância eram elementos constantes. Hoje, os ícones são outros! Há as cisternas, os saberes populares compartilhados, as sementes e frutos saboreados, o re-conhecimento das culturas locais valorizados.

Restabelecer, recriar, reconstruir - Três palavras que se fundem e que elevam nossos pensamentos sobre as práticas na educação. Assim pudemos avaliar nosso encontro, fazer proposições. As microrregiões fizeram uma avaliação em grupo que logo será socializada através de relatório. Destacamos uma proposta levantada pela microrregião do Vale do Jaguaribe, para que nas semanas pedagógicas dos municípios possa ser apresentada a Educação Contextualizada através da experiência do Programa Cisterna nas Escolas.