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21.04.2016
Águas e sementes
Jornal do Brasil - Selvino Heck*


As águas da solidariedade derrubaram o golpe. As sementes de esperança iluminam o futuro.
Escrevi estas palavras em 15 de abril de 2016, sexta-feira, às 19h13. Acreditava na vitória da verdade sobre a mentira, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a desigualdade, da democracia sobre a ditadura, da honestidade sobre a corrupção no dia 17 de abril, na votação do impeachment que é golpe da presidenta Dilma pela Câmara Federal.



Não foi o que aconteceu, mesmo com o povo nas ruas, lutadores e lutadoras chorando abraçados, muitos deputados federais invocando Deus, a pátria e a família na hora do voto, como se estivessem ou tivessem voltado a 1964.

Paulo Dantas, ex-Secretário municipal de saúde de Recife,Pernambuco, falou em 19 de abril, no 4º Congresso Norte e Nordeste de Secretaria Municipais, realizado em Palmas, TO, na Roda de Conversa ‘Gestores e sociedade civil: tecendo a democracia na defesa do SUS’: “Minha mãe tem 107 anos e lê o Diário de Pernambuco todos os dias. Fui visitá-la e ela me disse: ‘Achei que já tinha visto tudo na vida e no Brasil, mas não. Vi um corrupto comandando um impeachment que é golpe de uma presidente eleita pelo povo. Acho que o Brasil não tem jeito mesmo. A primeira coisa a fazer, meu filho, é pedir luz para o Espírito Santo’.”  
O 10º Encontro Nacional Fé e Política vai acontecer de 22 a 24 de abril em Campina Grande, Paraíba, com o tema BEM VIVER: ÁGUAS DA SOLIDARIEDADE E SEMENTES DE ESPERANÇA (Informações e contatos: www.fepolitica.org.br – [email protected]).

As águas vêm do céu e são armazenadas nas cisternas de placa, seja para beber e uso dentro de casa, seja para produção, lá onde, o Semiárido brasileiro, por séculos, na seca todo mundo, em desespero e sem outra alternativa, corria para as cidades ou para o Sul, lá onde onde havia fome endêmica, as crianças, muitas, morriam logo depois de nascer, ninguém podia plantar e sobreviver com seu próprio trabalho e suor.Hoje, 500 anos depois, século XXI,  as cisternas de placa, nascidas da organização da sociedade civil e posteriormente apoiadas por programas e políticas do governo federal, são construídas no esforço comunitário, prenhes de solidariedade, amor pela vida, sentido de futuro.

As sementes fazem brotar o verde da terra, sementes crioulas da Serra da Borborema e de todo Semiárido brasileiro, sem veneno, estão cheias de vida para dar, são alimentos de identidade de um povo,adequados e saudáveis, lá onde a fome não chega mais e a esperança voltou a florescer.

A fé alimenta almas, corações, espíritos. Alimenta o sonho de um Reino de justiça e igualdade, onde os seres humanos, como irmãs e irmãos, companheiras e companheiros,  agricultoras e agricultores da boa mão e da sabedoria popular, rezam juntosa ladainha da fraternidade.

A política, a boa política, de acordo com a pólis dos gregos, cuida da cidade e do bem comum e constrói, em harmonia com a natureza, uma sociedade do Bem Viver.Vivian Camacho, médica boliviana, do povo quéchua e do Movimiento por laSalud entre losPueblos, diz que Bem Viver é SUMAQ KAWSAY: buenvivir, buen sentir, bien pensar, buenhacer, buen lograr. A vida: lo que te hacevivir, BUEN CON-VIVIR.

Os romeiros do 10º Encontro Nacional Fé e Política continuam acreditando na política como construção da democracia e como serviço, porque se inspiram nos homens e mulheres do Semiárido brasileiro que nunca deixaram se vencer, nunca foram derrotados definitivamente, nunca deixaram de acreditar e sonhar. Em cada mandacaru há sinais de verde e vida. Cada chuva que cai do céu permite plantar o feijão nosso de cada dia, a semente crioula da esperança, dar comida aos filhos, conviver com a caatinga e a seca, aprendendo com elas, a caatinga e a seca, a resistência de um povo e cultivando as águas da solidariedade.

Os romeiros do 10° Encontro Nacional Fé e Política permanecem na fé dos justos, dos que fazem da solidariedade e da esperança o sentido maior de viver, acima das cobiças e do dinheiro, além das injustiças cometidas com os mais fracos, além do poderque só olha para o seu próprio umbigo e não enxerga a gente que sofre ao seu redor, do poder insensível que não dá de beber para esta tenra planta que é a democracia. É uma fé que luta pelos direitos de todas e todos, que faz presente a eternidade e a constrói aqui e agora.

Só perde a esperança quem não tem fé. Só deixa de construir a solidariedade quem não faz a boa política. O exemplo aí está: as águas das cisternas de placa e as sementes crioulas. Solidariedade e esperança. O sertão, a caatinga, assim como o povo brasileiro, vivem e ressuscitam cada dia.
* Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã
Secretaria Nacional de Articulação Social

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