IX EnconASA

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28.11.2016
Um dia para ir ao campo e se reabastecer com histórias de resistência dos povos do Semiárido

Na última quarta-feira (23), os participantes da nona edição do Encontro Nacional da ASA (EnconASA) foram ao encontro de 11 comunidades e assentamentos da agricultura familiar camponesa no território do Apodi. O oeste do Rio Grande do Norte é uma região de terras férteis dentro do Semiárido, uma zona de confronto entre os dois modelos de produção agrícola: a agricultura familiar agroecológica e o agronegócio.

No final dos anos 1990, o território já ocupado por comunidades tradicionais e famílias campesinas começou a ser invadido pelas empresas do agronegócio que levaram seu rastro de destruição para a região a partir do uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras, da exploração da mão de obra e da degradação dos recursos naturais.
Proporcionalmente à pressão do agronegócio, há uma grande resistência das famílias agricultoras da região que lutam pela posse de terra, pelo acesso à água e pela consolidação da agroecologia. Cerca quatro mil famílias vivem em 121 assentamentos, como a família de dona Ana Maria da Silva e seu Damião, do assentamento Professor Maurício de Oliveira, em Assú.

Na região, grande parte das iniciativas de resistência das famílias camponesas é protagonizada por mulheres, que se destacam pela coragem em defender direitos e buscar melhorias para suas comunidades e assentamentos. São inúmeras histórias de coletivos de mulheres que têm, com persistência e determinação, resistido às investidas do agronegócio de tirá-los da região ao mesmo tempo em que conquistam diversas tecnologias de convivência com o Semiárido.

As visitas às comunidades foram um mote para a troca de experiências sobre a vida camponesa no Semiárido. Experiências de outros estados também foram apresentados para ampliar o debate sobre os desafios enfrentados a cada dia pelos que vivem na parte rural da região.

Conheça algumas das experiências visitadas.

Ana Maria e Damião, agricultores familiares camponeses com muito orgulho
Ex-funcionários das empresas do agronegócio Frunorte e Fruvale, o casal dona Ana Maria e seu Damião contam que um dia Ana adoeceu devido aos venenos que ela tinha contato e resolveram pela saída do afastamento deste trabalho que estava sugando sua vida. Passou a trabalhar na terra dos outros dividindo a produção de forma desigual para ela. Foi quando recebeu um convite para ocupar um pedaço de chão ocioso com mais tantas outras famílias que não tinham terra própria para produzir. Em dois anos, os acampados em barracas de lona se transformaram em assentados e foram buscando melhorias para a infra-estrutura do assentamento batizado de Professor Maurício Oliveira, em Assú. 

Para receber os visitantes, Ana Maria ofertou um dos seus tesouros: as sementes que guarda no seu banco familiar.| Foto: Verônica Pragana/Asacom

Neste período, Ana passou a fazer parte das capacitações promovidas pela CPT e a perceber que o espaço da mulher é bem mais amplo do que a casa. Aos poucos, vencendo a resistência de Damião, Ana foi dando vários passos em direção à sua autonomia. Começou a participar de cursos, reuniões e intercâmbios com outros agricultores/as familiares. Fez curso pra aprender a construir cisternas e aprendeu a conjugar o verbo conquistar.

Conquistou tanto bens materiais, como as tecnologias sociais que facilitam a vida de quem vive e produz no Semiárido, como as cisternas de água de consumo humano e de água para produção de alimentos, infraestrutura para viveiros de plantas nativas e fruteiras e para banco de sementes familiar. E também conquistou a sua família, uma a um. Primeiro o marido Damião, que não acreditava no caminho vislumbrado e seguido pela esposa, e segundo, os filhos. O sistema produtivo de Ana e Damião é típico da agricultura familiar camponesa: diverso e abundante. “Sou tão feliz. Não tenho dinheiro, mas tenho alimento saudável para escolher, saúde e faço o que gosto”, dispara Ana com os olhos faiscando.

Ela acolheu agricultores e agricultoras que são lideranças nas localidades onde vivem e técnicos das organizações da ASA vindos de 40 municípios do Semiárido brasileiro, de Minas Gerais ao Maranhão. Todos ávidos por conhecimento que os levem cada vez mais para perto de seus direitos. “Estamos aqui porque demos um passo a mais nas nossas comunidades. E aí saímos dela. Atingimos o estado e saímos dele. E podemos chegar até em Brasília”, afirmou Ailson Silva de Souza, do Ceará.

 

Seu França e dona Mazé, acesso a mercado e segurança alimentar na comunidade

A 15 km do centro de Mossoró, na comunidade Serra Mossoró, a propriedade de três hectares de Francisco da Luz França e Maria José Amorim França, ou simplesmente, seu

Há nove anos a família abandonou a agricultura com uso de agrotóxicos e vem fazendo a transição agroecológica | Foto: José Bezerra/comunicador popular da ASA Potiguar

França e dona Mazé, se destaca no meio da paisagem árida da região pela quantidade de árvores e de verde espalhados ao redor. Há nove anos a família abandonou a agricultura baseada na monocultura e no uso de agrotóxicos e vem fazendo a transição agroecológica. De lá pra cá, viu a sua vida mudar da água para o vinho.
Seu França é feirante e atualmente participa de quatro feiras agroecológicas e integra a Rede Xique-xique de Comercialização Solidária. O agricultor desenvolve um conjunto de experiências em sua propriedade como a criação de galinhas, abelhas e peixes, a produção diversificada de hortas e pomares, minhocário, banco de sementes comunitário com mais de 30 variedades de sementes, entre outros.

Dona Mazé é agente comunitária de saúde desde 2004 e faz um trabalho de conscientização na comunidade sobre a importância da alimentação saudável. Quando não está atuando, divide as tarefas com o companheiro na propriedade e gosta de fazer de tudo um pouco na agricultura. O trabalho tem ainda o reforço da filha do casal, Francedir Amorim França, de 24 anos, que atualmente cuida da criação de galinhas e auxilia o pai na parte contábil das vendas.



Assentamento Milagres, reuso de toda água consumida

O sistema de reúso de água do Assentamento Milagres, localizado na Chapada do Apodi no Rio Grande do Norte, direciona a água do banheiro e pia da cozinha para molhar diversos cultivos, a exemplo da palma-forrageira, algodão e mamão. Este é o único assentamento do Brasil que utiliza 100% da sua água consumida.

A agricultora assentada e membro do grupo de mulheres, Antonia Maria de Souza, conhecida como Antonieta, destaca que as parcerias contribuíram para que a comunidade conseguisse ter autonomia na produção e reconhecimento. “O sindicato e o grupo de mulheres apoiam muito a nossa produção, organização e acompanhamento. Tudo o que agrega uma parceria vai aumentando a auto-organização de cada grupo. Agora a gente tem o entusiasmo de dizer que é um Milagre”, explicita dona Antonieta fazendo um trocadilho com o nome do Assentamento.

O acesso à políticas e programas como o sistema de reuso de água, as cisternas, as linhas de crédito (Pronaf A e Pronaf Mulher), casa de sementes são algumas das ações que a comunidade aponta como fundamentais para que, hoje, as famílias tenham uma melhor qualidade de vida. Para os/as moradores/as, o maior desafio hoje é enfrentar a pressão do hidroagronegócio que tem expandido sua área de exploração ao redor das terras do Assentamento e contaminado o ar, o solo e a água com os agrotóxicos usados nos monocultivos.


Grupo de Jovens do Assentamento Santo Agostinho, um caminho de permanência no campo

Visitantes que conheceram a história do grupo dos jovens do Assentamento Santo Agostinho | Foto: Luna Almeida/ comunicadora popular da ASA BA

Em Caraubás, as famílias do assentamento rural Santo Agostinho receberam com festa os visitantes com diferentes sotaques que denunciam a região de onde vêm. Em versos de cordel, os anfitriões e anfitriães contaram histórias da luta das 31 famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “É no grupo de jovens que mantemos a união”, declamaram na primeira frase.

O Grupo de Jovens do Santa Agostinha (Grujasa) desenvolve atividades formativas, culturais e econômica com apoio da Associação de Moradores/as e do grupo de mulheres do assentamento, além de parceiros. É uma ação que busca contribuir para a permanência e qualidade de vida dos/as assentados/as de Santo Agostinho. “Fazemos parte do grupo de jovens desde que foi fundado”, conta a moradora Aliny Lima.

Aliny e o esposo, Evanildo Melo, continuam fazendo parte do Grujasa após constituir família, construir residência, deixar de ser filhos de assentados e se considerar também assentados. Conquistaram a casa própria feita de alvenaria, quando anos antes moravam em casas de taipa e ajudavam os pais no trabalho em fazendas. “Eu estudava e trabalhava, assim passei a entender que estava sendo explorado”, relatou Everaldo sobre as relações com os donos das terras onde a família trabalhava.

Ao final, visitantes e moradores conversaram sobre juventude e sucessão rural socializando dificuldades e estratégias para que a juventude permaneça na área rural com qualidade de vida. “Que modelo de desenvolvimento queremos para o país? Queremos para o país que permita à juventude conseguir ser mais feliz, trabalhando e produzindo no lugar que sempre quis!”, declamou o cordelista Leonildo Melo, morador do assentamento Santo Agostinho.

 

A história do quilombo Jatobá no altar | Foto: Janaína Henrique/ASA Potiguar

Quilombolas de Jatobá, descobrindo a identidade para lutar pelo território
“Nós era quilombola e não sabia”! A consciência negra do racismo e preconceito sofrido pelos quilombolas de Jatobá, município de Patu, abriu as portas para a comunidade ir em busca dos direitos negados. Eles contaram sua história para os cerca de 30 visitantes de todos os recantes do Semiárido. A conversa girou em torno das diferenças e semelhanças da conquista pela terra e território entre as comunidades quilombolas a partir da experiência de Jatobá, da Associação Kilombo do Rio Grande do Norte e de áreas de assentamentos do Ceará.

O protagonismo das mulheres da comunidade de Jatobá é algo que fortalece a comunidade recém titulada, tanto em relação à conquista da terra, ao resgate das expressões culturais e à convivência com o Semiárido, como conta Sandra Silva da associação local: “Um trabalho muito bonito aqui e muito importante pra gente é o trabalho das mulheres. Nós somos uma associação de poucas pessoas e a cabeça da associação aqui no quilombo são as mulheres. É muito importante porque estamos participando dos eventos e recebemos um projeto que foi pela ASA e quem executou esse projeto aqui foi um grupo de mulheres. E esse grupo ajudou muito as mulheres da comunidade no despertar, que as mulheres deviam e devem sair de casa e ir pra luta. Não é só ir para a cozinha, é sair e levantar a bandeira junto com elas”, conta.


A comunidade Jatobá apresentou a dança de São Benedito, resgatada pela associação local durante o processo de consciência negra. A despedida da caravana na comunidade foi simbólica. Os anfitriões plantaram uma muda da árvore Jatobá no meio da comunidade, representando a persistência no reflorestamento desta árvore na
comunidade, uma ação já realizada duas vezes pela comunidade sem bons resultados. Neste intercâmbio, a comunidade acessou uma informação importante sobre uma nova forma de plantar a árvore que deu nome ao território. Com este novo conhecimento, a comunidade segue em busca de um dos seus sonhos.


Zé Varela, uma voz que se amplia através das ondas de rádio

A comunicação de seu José Varela testemunhada pelos participantes do IX EnconASA | Foto: Ellen Dias/comunicadora popular da ASA potiguar

O intercâmbio realizado na Vila Amazonas, em Serra do Mel, RN, teve como tema a “comunicação como direito”, enfatizando a experiência de seu José Varela, um agricultor da comunidade que idealizou a rádio comunitária local. O objetivo da rádio, inicialmente, era ajudar na evangelização dos moradores e moradoras da vila, mas com o passar do tempo foi adquirindo uma característica mais comunitária, com programas voltados à população, avisos para e campanhas para a comunidade.

“Eu aprendi que evangelizar não é só falar de Deus, nem rezar, mas fazer alguma coisa, e aí surgiram os programas sociais também. A importância dessa rádio é que ela facilita a comunicação, traz alegria através das músicas, dos parabéns pros aniversariantes... Eu acho que é um serviço prestado à comunidade, possibilita fazer algo pelos outros, se for para fazer algo tem que fazer aqui, porque o que a gente vai levar dessa vida é o que a gente fez pros outros”, explicou seu José Varela.

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